Título: O escárnio do abuso
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 05/01/2006, Opinião, p. A10
O Brasil assiste, impotente e espantado, a mais uma decolagem do Congresso rumo ao horizonte infinito do abuso. De um lado, o escárnio da convocação extraordinária, na prática transformada em colônia de férias legislativa - alimentada pela robusta conta de R$ 100 milhões debitados do bolso do contribuinte. De outro lado, os incômodos indícios de um eventual ''acordão'' para livrar da cassação deputados traquinas envolvidos no escândalo do mensalão.
(Apesar das declarações em contrário de alguns ocupantes dos gabinetes mais vistosos do Congresso, a insistência com que o assunto é abordado por inúmeros parlamentares sugere a iminência da esperteza. Convém rechaçá-la com especial vigor.)
São duas faces de um mesmo e perverso retrato: o corporativismo ferrenho e o desapego de substantiva parcela dos parlamentares às demandas dos eleitores e à imagem que estes fazem da Casa que os representa. A conduta do Congresso - extensiva à maioria das assembléias legislativas e das câmaras de vereadores - tem sido costumeiramente balizada por truques escolhidos de um estoque vastíssimo.
Insista-se: o exaurido povo brasileiro, ou pelo menos a esmagadora maioria, não suporta mais deparar-se com tamanho assombro: o engordo parlamentar com um bolo impressionante, confeitado por privilégios que atestam muita imaginação, inventividade de sobra.
A pelo menos 15 salários anuais, soma-se uma horta de mordomias com poucos similares no planeta. Nela brotam benefícios como auxílio-paletó, auxílio-moradia, passagens aéreas para os espichados fins de semana nos estados de origem e verbas de indenização para gastos sem laços aparentes com o exercício do mandato.
O Brasil ainda viu consolidar-se na Câmara e no Senado a semana de trabalho mais curta do mundo. Em tempos normais, os dias úteis são dois, no máximo três. De sexta a segunda, os pais da Pátria voltam aos estados de origem para a obrigatória ''visita às bases''.
Por tais razões, é inaceitável a sucessão infinita de ''convocações extraordinárias'', que enche os bolsos de parlamentares e esvazia a paciência do eleitor diante da gazeta de muitos e do desinteresse de outros tantos. Acrescida dos rumores de acordos espúrios. Somados, transformam-se no avesso do civismo.