Título: O ponto zero da crise
Autor: Juliana Rocha
Fonte: Jornal do Brasil, 08/01/2006, País, p. A3

A ''Carta ao Povo Brasileiro'', divulgada por Lula em 22 de junho de 2002, depois de um encontro com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, foi o marco da divergência com a ideologia do partido. Meses antes, o PT divulgou o documento ''Ruptura necessária'' com as diretrizes para o mandato seguinte.

O texto do PT falava em acabar com a ''subordinação aos interesses e humores do capital financeiro globalizado'', exaltava a política econômica nacionalista e atacava os juros para combater a inflação - tido como o único objetivo do governo FH.

Fora de contexto, o documento poderia ser uma crítica ao governo Lula, como fez o PT na reunião de novembro passado, com críticas aos juros altos e superávit primário (economia para pagar os juros da dívida) elevado.

A Carta ao Povo Brasileiro anunciava justamente a política atual. Na ânsia de agradar o mercado financeiro, que na época rechaçava a idéia de um governo petista, Lula garantiu que não quebraria contratos - ou seja, não daria calote na dívida, antiga promessa do partido de esquerda.

O candidato que passou os oito anos anteriores pregando o ''Fora FMI'' e o calote aos bancos transformou-se no ''Lulinha Paz e Amor'', criado pelo marqueteiro Duda Mendonça. O fato é que Lula afirmou que a premissa de seu governo seria ''o respeito aos contratos e as obrigações do país''.

- Ninguém precisa me ensinar a importância do controle da inflação. E vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar seus compromissos - disse Lula.