Título: Programa de governo opõe Lula ao PT
Autor: Juliana Rocha
Fonte: Jornal do Brasil, 08/01/2006, País, p. A3

A relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT, conturbada desde o escândalo do mensalão, ficará ainda mais frágil com o início da elaboração do programa de governo para a disputa da reeleição. O PT quer a garantia de Lula de que o projeto será seguido à risca no próximo mandato, se for eleito. O partido se arrisca a confeccionar um programa que não será seguido pelo presidente.

O secretário-geral do PT, deputado estadual Raul Pont (RS), da ala esquerda do partido, teme que o presidente Lula se distancie ainda mais do PT e desconsidere as idéias do partido se for eleito para o próximo mandato. Ele destaca que, nos três anos decorridos do mandato, as ações de Lula ficaram alheias ao programa de governo elaborado em 2002 pelo PT, pela Fundação Perseu Abramo - instituição do partido - e pelo Instituto Cidadania (que criou o Programa Fome Zero).

- Lula não seguiu o programa, principalmente na área econômica. Isto é culpa das alianças que foram feitas - destaca Pont.

O deputado acrescenta que o partido vai cobrar de Lula a garantia de que seguirá a linha ideológica petista. Ele deseja, ainda, que o presidente fale mais do partido em seus discursos pelo país.

- A base de apoio do governo é o PT. O presidente precisa ter uma ligação mais regular com o partido. Queremos conversar com Lula para estabelecer um projeto de país de comum acordo.

Cauteloso, Lula vai indicar três representantes para o grupo de trabalho que vai elaborar o programa para impedir que o partido faça promessas que ele não pretende cumprir.

Os fiéis escudeiros que devem integrar o grupo de trabalho como representantes do presidente são Tarso Genro - que presidiu o partido após a saída de José Genoíno -, Marco Aurélio Garcia - assessor de Lula para a área internacional - e Luiz Dulci - ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Guido Mantega, também deve participar. Nas eleições passadas, ele integrava o Instituto Cidadania e elaborou boa parte do programa econômico. Saíram de cena José Dirceu e Luiz Gushiken, peças-chave do aparato que levou Lula ao Planalto.

Genro se preocupa com as exigências que o PT venha a fazer na elaboração do projeto.

- Não podemos ter um programa que não seja acolhido pelo presidente. Por isso Lula decidiu indicar nomes para representá-lo na criação do programa - justifica.

Genro admite que não existe um cronograma definitivo de trabalho.

Embora o PT seja governo, o calendário está apertado. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), por exemplo, elaborou um novo programa para o segundo mandato em 1998, que previa até a criação do Ministério da Produção, para impulsionar o crescimento econômico. Um dos colaboradores da época, o cientista político Bolívar Lamonier, lembra, porém, que a principal ação de governo do segundo mandato FHC não era prevista em nenhum programa: a flexibilização cambial e as metas de inflação.