Título: Lula em reconstrução
Autor: Antônio Mello
Fonte: Jornal do Brasil, 09/01/2006, Outras Opiniões, p. A11
Após aquilo que poderíamos chamar de ''a grande lambança'', Lula e o PT agem de modo semelhante: o PT fingindo um ato de contrição e Lula fingindo que não teve nada a ver com o que aconteceu.
Como Lula de bobo não tem nada, é difícil aceitar isso. Provavelmente o presidente sabia de todo o esquema de compra de deputados. Desde que foi um deles, Lula acha - como a maior parte dos brasileiros - que só pensam em ''verbas''. Combinado com Dirceu ofereceu-lhes o que queriam.
Logo que assumiram o governo, viram alguns deputados a preço de ocasião e os compraram para reforçar a base aliada. Outros começaram a fazer fila no balcão, e então eles imaginaram que era só liberar as ''verbas'' com ''nosso Delúbio'' que o futuro estaria garantido. Até que Roberto Jefferson, que confessadamente enfiou quatro milhões num buraco escuro, deu com a língua nos dentes e tudo ruiu.
Esqueceram-se de um ditado popular que diz que em rio onde tem piranha jacaré nada de costas. De peito aberto, eles agiram pensando que tinham descoberto a pólvora. Tarde demais, perceberam que ela explode.
Mas Lula tem duas qualidades, que ninguém pode negar: é um sortudo e um oportunista - no sentido positivo da palavra, de alguém que sabe aproveitar as oportunidades.
E a sorte dessa vez pode se manifestar numa briga fratricida dentro do PSDB, que logo, logo vai lançar os partidários de Alckmin contra os de Serra. E vice-versa. Há também a guerrinha particular entre Serra e o ex-presidente FHC, que se acirrou ainda mais na última campanha presidencial. Sem esquecer o ''amor'' que parte do PFL e a família Sarney nutrem pelo atual prefeito de São Paulo, acusado de ser o mentor da excursão da Polícia Federal que descobriu dinheiro no cofre e matou a candidatura de Roseana Sarney na subida.
Enquanto isso, Lula participa de inaugurações, comparece até a batizado de boneca e dá sua mensagem. ''Nunca na história desse país'', e mostra os números: inflação lá embaixo, tantos novos empregos, superávit, recorde na balança comercial, nas exportações, fim da dívida com o FMI...
Depois, apresenta o saco de bondades para 2006, agradando os eleitores na parte mais sensível de seus corpos, o bolso.
Para industriais e homens do agronegócio, que reclamam do governo como pessoa jurídica mas deitam e rolam como pessoa física, uma nova renegociaçãozinha das dívidas a perder de vista.
Para a classe média, um imposto de renda mais camarada, que tal?
Para os pobres, um aumento no salário-mínimo e o Bolsa Família chegando a quase 12 milhões delas.
Este último ano - o presidente já afirmou - é o da colheita. Tome inauguração. Tome ufanismo. É também o ano de plantar mais alguns projetos, para ver se consegue fazer brotar novamente no coração dos brasileiros aquela esperança, que foi o mote de sua campanha e que ''a grande lambança'' apagou. Se conseguir, recupera a chance de se reeleger.
Mesma sorte não terá o PT. O partido foi o mais atingido pela crise e verá sua bancada encolher, o que vai dificultar e muito a vida de Lula, caso este se reeleja. Como compor uma maioria sem comprá-la? - será seu desafio.
Só aí veremos se as tais lições da crise ensinaram algo ao presidente, que costuma, ao contrário, jactar-se de suas deficiências.