Título: Shimon Peres volta à cena
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Fonte: Jornal do Brasil, 07/01/2006, Internacional, p. A7
O primeiro movimento aberto no xadrez da sucessão do primeiro-ministro Ariel Sharon foi dado ontem pelo atual premier, Ehud Olmert, que convidou o ex-líder trabalhista Shimon Peres para uma reunião no gabinete. A ação teve dois propósitos além de discutir a situação no governo: convencer Peres a assumir a condução das políticas implementadas por Sharon no novo partido Kadima e bloquear as investidas do líder do Partido Trabalhista, Amir Peretz, interessado em trazer o Nobel da Paz de volta à legenda.
À saída, Peres afirmou seu compromisso com a busca de um acordo de paz com os palestinos, projeto que o levou a aceitar deixar os trabalhistas e seguir para a nova legenda.
- Nos basearemos em dois pilares: seguir adiante para conseguir a paz e, simultaneamente, combater com o mesmo vigor o terrorismo - disse, acrescentando que o encontro foi apenas o primeiro. - Todos viam Sharon como uma figura-chave não pelo que fez, mas pela capacidade de continuar com esse propósito.
Como premier interino até as eleições, Ehud Olmert tem poderes de nomear ministros. E os usou na reunião como forma de garantir que Peres fique no Kadima, o que sustentaria a vantagem que a nova legenda apresenta nas pesquisas. Entre as possibilidades discutidas estava a indicação de Peres como vice-premier, cargo hoje vago, com a responsabilidade ainda de cuidar do desenvolvimento das regiões do Neguev e da Galiléia. O encontro foi interrompido com a informação de que Sharon era operado novamente. Peres afirmou que ele e Olmert concordaram que ambos têm pontos de vista comuns, mas não quis adiantar sua decisão.
- Nem ele, nem eu desistimos da esperança, da visão e das possibilidades - disse Peres.
Assessores do atual premier consideravam o encontro crucial. Se Peres não se manifestasse, seu retorno ao Likud poderia arrastar outras figuras com força eleitoral. Tal preocupação foi manifestada no telefonema no qual o Nobel da Paz de 1994 foi convidado para o encontro. Algumas dessas pessoas disseram já ter sido sondadas, mas responderam negativamente. Preferiam, como a ministra da Justiça e rival de Olmert como número dois do partido, Tzipi Livni, prometer ajudar a estabilizar o partido e o governo. Livni garantiu, ainda, que não disputará a indicação do partido para ser o nome a suceder Sharon.
Manifestação de apoio a Ehud Olmert também foi feita por ministros do Kadima, entre eles o da Segurança, Shaul Mofaz, além dos assessores mais próximos de Sharon, alguns deles acompanhando o premier no hospital. O objetivo da operação é impedir que ocorra uma batalha interna que acabe enfraquecendo a legenda diante dos rivais Peretz - que defende a criação de um Estado palestino e a cooperação entre os dois povos - e Benjamin Netaniahu, do Likud - ''falcão'' nacionalista apegado ao dogma de Eretz Israel (a terra de Israel nas fronteiras bíblicas) e que se apresenta como um ''líder forte''.
Apesar disso, a ausência do fundador impõe alguns problemas estratégicos, já que todas as decisões estavam concentradas em Sharon. Está programada uma reunião entre os criadores do partido na qual estejam os 13 ex-integrantes do Likud que elegeram Sharon como o líder da legenda.