Título: Fundo Monetário mantém as cobranças e o sermão a Lula
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 11/01/2006, País, p. A2

A festa para comemorar o pagamento antecipado da dívida do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi marcada por um sermão econômico e um puxão de orelhas do antigo financiador, e agora ''parceiro''. Na avaliação do diretor-gerente do FMI, Rodrigo Rato, apesar dos avanços obtidos pela economia brasileira nos últimos anos, o país não está aproveitando todo o seu potencial de crescimento.

- O crescimento econômico brasileiro está acelerando e entrando numa fase de crescimento em torno de 4%, o que é importante. Mas o Brasil deve ter objetivos mais ambiciosos a médio prazo - discursou. A previsão do FMI de crescimento econômico para este ano é menor que a do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, de 5%.

O ministro, por sua vez, tentou mostrar que as ações do governo não foram adotadas por imposição do FMI.

- Nossa política econômica nunca foi nem poderia ser uma imposição do Fundo Monetário, mas sim uma opção responsável diante da necessidade de ajustar a economia e promover o crescimento econômico sustentado e a taxas elevadas.

Para o espanhol do Fundo Monetário, o Brasil ainda ''não explorou totalmente seu potencial'' para atrair investimentos, mesmo tendo recebido nos últimos anos grande volume de investimento privado.

O modelo sugerido pelo FMI para os próximos anos é o mesmo aplicado desde o final de 1998, quando o começou o ciclo de empréstimos com o fundo: esforço fiscal para reduzir a dívida, liberdade orçamentária, autonomia do Banco Central, mudança nas leis trabalhistas e ampliação do mercado de crédito.

Na cerimônia de ontem no Palácio do Planalto, Rato fez um discurso mais longo do que o do presidente Lula e de Palocci. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, aparentava mau humor na cerimônia. Ela é a principal crítica das políticas de Palocci.

O Brasil antecipou o pagamento, no final do ano passado, dos US$ 15,6 bilhões que restavam do último acordo com o Fundo, com vencimento previsto para 2007.

Rato defendeu mais aperto fiscal para reduzir a dívida pública dos 51% do PIB para 40% em cinco anos , a flexibilização das leis trabalhistas e o fim das linhas de crédito controladas pelo governo. Segundo o espanhol, se seguisse o Brasil seguisse essa cartilha do FMI, cresceria mais.

No momento em que propôs autonomia do BC, medida que causa polêmica dentro do PT, Lula fez cochichou com Palocci, e os dois sorriram. O presidente do BC, Henrique Meirelles, ouviu tudo sem demonstrar reação.

A gentileza de Rato, que veio ao Brasil especialmente para a cerimônia a convite do governo, foi retribuída com elogios do presidente e de Palocci.

- Ainda há vários desafios a vencer para que o país alcance seu vasto potencial de crescimento sustentado e atenda aos anseios de seu povo. O ritmo de crescimento melhorou recentemente, mas estou certo de que o Brasil pode ir ainda mais longe - afirmou Rato. E acrescentou que o Brasil irá crescer, neste ano, ''a uma taxa de 4%''. O número, porém, é inferior ao que foi prometido a Lula.

Na mesma linha, o ministro da Fazenda discursou em defesa do sistema de metas de inflação, do câmbio flutuante e do ajuste fiscal.

- Temos que dar ao nosso processo de consolidação fiscal uma perspectiva de longo prazo e melhorar a qualidade do ajuste que fizemos, diminuindo a rigidez do Orçamento - disse.

As ''rigidez do Orçamento'' são os direcionamentos obrigatórios previstos na Constituição para áreas como Saúde e Educação. Para Palocci, esses direcionamentos não trazem benefícios sociais suficientes e atrapalham o cumprimento das metas fiscais do governo.