Título: PP na linha de frente das cassações
Autor: Renata Moura
Fonte: Jornal do Brasil, 11/01/2006, País, p. A5

Embora o presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), negue, começam a aparecer sinais da existência de um acordo para livrar alguns parlamentares envolvidos com o escândalo do mensalão. Ontem, Izar passou por cima do cronograma de trabalhos e não deu fim ao processo contra Roberto Brant (PFL-MG), pronto desde o início de dezembro. Justificou que o relator das investigações, deputado Nelson Trad (PMDB-MS), precisaria de mais tempo para ouvir representantes da Usiminas, empresa que teria fornecido os R$ 103 mil não-contabilizados para a campanha de Brant à prefeitura de Belo Horizonte. Com isto, passou para o primeiro lugar da fila, o relatório do tucano, Carlos Sampaio (SP), responsável pelo parecer de Pedro Corrêa (PP-PE).

- Não tem nada de acordo. O relator precisou e vamos conceder-lhe o direito a ouvir quem mais quiser para encerrar seus trabalhos. Não posso obrigá-lo a entregar o parecer - rebateu Izar.

Trad demonstrou surpresa com a atitude do presidente do Conselho. Para colegas, chegou até a desabafar que seu voto já estava ''escrito e lacrado'', numa demonstração de que novos depoimentos seriam desnecessários. De público, afirmou que vai esperar até que a Usiminas se pronuncie e assim, ''acrescentar mais comprovações'' ao seu parecer.

- Minha convicção já está formada. Não pude agir como gostaria de ser com Brant, a quem tenho muito apreço. Se fosse julgar pelo passado dele, não poderia seguir a linha que assumi em meu relatório - afirmou Trad demonstrando com clareza que seu voto deve pedir a cassação do deputado mineiro.

O voto do relator, pela cassação do mandato de Brant, deve ser seguido pelos colegas do Conselho e sua salvação estaria sendo arquitetada para o plenário. Nos bastidores, integrantes do Conselho avaliaram o maior tempo dado ao parlamentar mineiro como ''uma espécie de pagamento de uma dívida pelo apoio dado ao deputado Romeu Queiroz (PTB-MG) no plenário''. Estariam à frente das cobranças, a bancada mineira, o PFL e até mesmo alguns deputados do PSDB, interessados em minimizar as acusações de caixa-dois dos ombros do senador tucano, Eduardo Azeredo (MG).

- Isto está claro. Quem for neste momento para o plenário vai encarar a fúria pós-Queiroz, e será cassado. Se o Brant for agora, o PFL ganha um cassado para sujar a imagem do partido nas próximas eleições - afirmou um dos parlamentares que integram o Conselho.

Outro parlamentar que segue a mesma linha de raciocínio, e também prefere ficar no anonimato, disse acreditar que o acordo firmado para inocentar Queiroz acabou comprometendo muito o posicionamento de alguns integrantes do PFL, PSDB, PT, PP e PL.

- O feitiço voltou contra o feiticeiro. Agora quero ver justificar para a sociedade o livramento de todos os outros - acrescentou.

O petista Professor Luizinho (SP) também deve ganhar fôlego com o ''suposto acordo'', segundo parlamentares. O relator de seu processo, Pedro Canedo (PP-GO) estaria disposto a inocentar Luizinho ainda no Conselho. Apesar de indicados pela cassação no Conselho, também engordariam a lista do acordão, com absolvição em plenário, o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP) e Wanderval Santos (PP-SP).