Título: Irã ignora pressões e reabre usina
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Fonte: Jornal do Brasil, 11/01/2006, Internacional, p. A8

O Irã retirou ontem alguns dos lacres dos centros de pesquisa nuclear da usina de Natanz (Centro), onde o enriquecimento de urânio é realizado. A decisão do governo de Teerã provocou reações indignadas no Ocidente.

- Os centros que tiveram os lacres retirados recomeçarão o seu trabalho hoje - anunciou, ontem, Mohamed Saidi, vice-diretor da Organização Iraniana de Energia Atômica, que se recusou a fornecer uma lista dos centros de pesquisa cujos lacres foram retirados.

Em Viena, uma porta-voz da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou que o Irã havia retirado os selos na presença de seus inspetores'':

- A produção de combustível nuclear, no entanto, ainda está suspensa - ressaltou Saidi, indicando que o Irã não alimentaria as centrífugas para enriquecer urânio.

Já para o diretor-geral da AIEA, Mohamed ElBaradei, a intenção de Teerã é mesmo o enriquecimento ''em pequena escala'', segundo um comunicado em que manifestou sua ''profunda preocupação''.

A reação mais forte ao anúncio veio da Casa Branca, que ameaçou Teerã:

- Se o regime iraniano continuar a agir desta forma e desobedecer às obrigações internacionais, não haverá outra alternativa a não ser levar a questão ao Conselho de Segurança - provocou o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan.

O presidente francês, Jacques Chirac, considerou que Irã e Coréia do Norte vão cometer um grave erro se não apertarem a mão estendida pelas potências ocidentais.

Teerã havia anunciado em outubro de 2003 a suspensão voluntária de suas atividades relacionadas ao enriquecimento, que afetava sobretudo a usina de Natanz. A decisão levou a um acordo formal com Alemanha, França e Reino Unido, assinado em novembro de 2004, que retomou as negociações sobre o programa nuclear. Em agosto do ano passado, no entanto, o governo de Mahmoud Ahmadinejad quebrou a promessa e retomou a conversão de urânio.

O novo gesto iraniano coloca em risco as negociações, previstas para serem retomadas no próximo dia 18, em Viena.

A Alemanha pediu à AIEA que avalie as conseqüências da decisão iraniana para determinar, ao lado de Londres e Paris, se o prosseguimento das discussões ''possui algum sentido''.

No último dia 3, o Irã havia notificado a AIEA de sua decisão de retomar no dia 9 de janeiro as atividades de pesquisa nuclear. Desde então, a agência e países ocidentais multiplicaram os pedidos para que Teerã mantivesse a suspensão das atividades relacionadas ao enriquecimento de urânio.

O programa nuclear do Irã preocupa particularmente os EUA e a União Européia, que acreditam que o país esconde um projeto militar para a fabricação da bomba atômica.

O enriquecimento é uma etapa crucial da produção de energia nuclear. Em certo grau de concentração, o urânio pode servir de combustível tanto para uma central atômica quanto para a construção de uma bomba.