Título: Presidente promete criação de emprego
Autor: Solange Monteiro
Fonte: Jornal do Brasil, 16/01/2006, Internacional, p. A8

Michelle tem plano para os primeiros 100 dias de governo

SANTIAGO - A melhoria do acesso ao mercado de trabalho foi o principal ponto investido pela Concertación nos últimos dias de campanha. Da equipe econômica do comando da presidente eleita Michele Bachelet saiu em 27 de dezembro um agressivo programa que promete colocar em marcha 36 projetos nos primeiros 100 dias de governo.

Entre eles, destacam-se incentivos para a contratação de jovens de até 25 anos e melhorias nas condições laborais das mulheres, como a criação de um código de boas práticas e não-discriminação no trabalho e o direito a berçário onde as mães trabalhadoras possam deixar seus filhos. Michelle também buscou atuar com um ataque à histórica discriminação entre classes.

Já o presidente Ricardo Lagos, por sua vez, deu sua mãozinha à candidata desafiando o compromisso social da direita diretamente no Congresso, pressionando a aprovação de uma lei para regular as subcontratações e empregos temporários no país, que dão margem a condições precárias de contratação e limitam a possibilidade de representação sindical. De acordo com a empresa de outsourcing Adecco, atualmente a subcontratação é responsável 30% do emprego da população chilena. A votação do projeto, entretanto, foi adiada até a posse do próximo presidente.

Katherine Andrea Ibarra Bustos, 23 anos, estudante de Administração de Empresas, já passou por esse problema, com empregos que não ultrapassavam os três meses.

- Acredito que Michelle Bachelet poderá trazer mais dignidade a esse tema - diz.

A atitude de Katherine, buscando na participação política a solução para seus problemas, entretanto, é exceção entre os jovens chilenos, já que no país o voto se torna obrigatório somente depois do registro eleitoral - sem idade obrigatória para ser feito. Hoje, cerca de 74% dos 3 milhões de chilenos entre 18 e 29 anos não se registraram para votar. O principal motivo, segundo o Instituto Nacional de Juventude, é a falta de interesse pela política.

- Para mim, a política é um campo nebuloso. Por isso não me registro - justifica o administrador de empresas Felipe Oertega Fernandez, 27, apesar de manifestar admiração pela gestão de Lagos. - Confio nele. Nunca mais teremos um presidente à sua altura.

Para resolver esse problema, o programa de 36 projetos em 100 dias de Bachelet indica a mudança de sistema para o registro eleitoral automático ao momento que se faz 18 anos.

As expectativas passam ainda pela possibilidade de se ter uma sistema previsional mais justo que o atual, conhecido como AFP, criado ainda no governo de Pinochet, na década de 80. O aclamado sistema de previdência privada chileno ainda não conseguiu provar-se mais do que um capitalizador de empresas e mostrar garantias de aposentadoria digna, entre outros fatores pela própria falta de estabilidade trabalhista e por seu alto custo.

Segundo o Centro de Estudos Nacionais de Desenvolvimento Alternativo (Cenda), em 2002, a média de contribuição anual dos contribuintes do sistema era de apenas 4,2 meses. De acordo com o mesmo instituto, atualmente, os aposentados pelo sistema das AFP (4,7% do total) recebem em média US$ 183, contra a média de US$ 334 dos 74% de aposentados do sistema público.

Como medidas iniciais para uma reforma do sistema, o plano de 100 dias da Concertación inclui, entre outros, a promessa de reajuste das pensões mais baixas e o acesso automático dos aposentados ao sistema público de pensão assistencial.

A expectativa, depois da eleição, é saber a viabilidade e os resultados do ''Plano 100 dias, 36 compromissos''. Mais da metade deles necessita de um trâmite legislativo, e por isso a maioria inédita na Câmara e no Senado contam muito a favor.