Título: Violência desafia futuro comandante
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/01/2006, Internacional, p. A7

O governo brasileiro designou ontem o nome do segundo candidato para substituir o chefe da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), o general Urano Teixeira Mattar Bacellar, que cometeu suicídio no último sábado, em Porto Príncipe, conforme concluiu a autópsia do Instituo Médico Legal (IML) de Brasília. O último militar indicado é o general Jeannot Jansen da Silva Filho, vice-presidente do departamento logístico do Exército. Caberá, agora, à ONU a escolha do futuro líder da missão, que terá como principal desafio reassumir o controle do país. A violência, no entanto, parece não dar trégua, e aumentou nos últimos meses. Segundo o coordenador da ONG Médicos Sem Fronteiras no Haiti, Loris De Filippi, o número de haitianos tratados por ferimentos de balas aumentou consideravelmente nos hospitais próximos à favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe:

¿ Nos oito primeiros dias de janeiro, atendemos 33 feridos, número próximo dos 34 que tratamos durante todo o mês de novembro em Cité Soleil ¿ afirmou ao JB.

O médico informou ainda que, em dezembro, o número de atendimentos a feridos por armas de fogo na cidade mais que dobrou, aumentando para 75. Já em Porto Príncipe as estatísticas tomam proporções maiores. Contra os 140 haitianos que deram entrada nos hospitais da cidade na mesma situação em novembro, o último mês do ano contou 220 casos. A metade dos pacientes é de mulheres e crianças.

De Filippi destacou as condições de trabalho nos hospitais:

¿ Temos um anestesista e um cirurgião para os 150 partos e 80 operações mensais.

Antes de indicar o segundo candidato ao posto de comandante das forças de paz, no entanto, o governo teve de resolver o prenúncio de uma crise entre o Ministério das Relações Exteriores e o Comando do Exército. A chancelaria brasileira antecipou a designação do general José Elito Siqueira na segunda-feira. Na terça-feira, o comando militar esclareceu que a ONU tinha exigido dois nomes, e não apenas um, para a eleição ao cargo.

O vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, negou que o anúncio precipitado da chancelaria tenha gerado mal-estar, mas advertiu que ¿quem aponta nomes para missões desta natureza é o Comando do Exército¿, indicando que o escolhido deve ser mesmo o general Siqueira.

A pressa de Brasília em indicar os candidatos é justificada por outra disputa, externa: a Jordânia, que hoje supera o Brasil em 400 soldados, também deseja o comando da missão. A concorrência é visível até mesmo entre os soldados no Haiti. Os árabes, que resistem às ordens dos comandantes, têm sido qualificados de despreparados pelos militares brasileiros

Alencar aproveitou a ocasião para anunciar que os 1.200 militares brasileiros no Haiti poderão voltar ao país depois das eleições presidenciais previstas para 7 de fevereiro. O chanceler Celso Amorim, mais tarde, reagiu com mais cautela, dizendo que ¿ninguém quer a presença indefinida das tropas, mas que é preciso que existam condições para isso¿.

A falta de recursos no Haiti foi o motivo pelo qual o governo brasileiro decidiu fazer a autópsia do general em Brasília. Segundo o diretor da Polícia Civil do Distrito Federal, Laerte Bessa, pela característica do tiro, e por não ter sido achada nenhuma lesão de defesa no corpo, foi concluído que houve suicídio.

¿ O general Bacellar morreu devido a um tiro na boca, disparado de pouca distância e tinha pólvora nas mãos ¿ afirmou Bessa.