Título: Chávez expropria casas para pobres
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/01/2006, Internacional, p. A9
O governo da Venezuela se apossou de prédios e apartamentos em Caracas e vai transformá-los em residência para os pobres. A campanha de expropriação é parte da chamada ''revolução social'' do presidente Hugo Chávez, mas é apoiada pelo prefeito da capital, Juan Barreto, e pelos membros do conselho municipal que ordenaram, na semana passada, o ''uso público'' dos imóveis para as famílias de baixa renda.
Apesar da iniciativa bem intencionada, a campanha gerou um problema de segurança, já que encorajou venezuelanos sem-teto a invadir prédios desabitados em busca de abrigo - um antigo problema da cidade superpopulada. Barreto ordenou 13 desapropriações até agora, mas os desabrigados já entraram ilegalmente em 22 edifícios.
A maioria dos imóveis estava sem uso há anos, mas as autoridades também desapropriaram prédios em reforma e até os mais novos, com apartamentos à venda. No total, a lista preliminar conta 92 propriedades, cujos donos serão devidamente indenizados, afirma Barreto, sem precisar data ou valor.
Grande parte da população da Venezuela vive nas áreas urbanas. Só Caracas conta entre 6 e 7 milhões de habitantes, muitos vivendo em favelas. A necessidade de casas levou o governo a também desapropriar clubes de golfe nas áreas nobres.
Toda a onda de expropriações - inclusive de fazendas para a reforma agrária - tem feito com que muitos investidores e empresários adotem a cautela. Por anos, os venezuelanos mais ricos temem que Chávez ordene a captura de carros, casas e bens de luxo, seguindo os passos de seu aliado, o presidente socialista de Cuba, Fidel Castro.
O pesadelo burguês começou a tomar a tomar forma esta semana, quando Barreto e uma equipe de bombeiros tomaram um prédio de 92 apartamentos em El Rosal, um bairro a Leste de Caracas, local de novíssimos e luxuosos empreendimentos imobiliários. Todo o Rosal Plaza estava vazio, mas cerca de 30% das unidades já haviam sido vendidas ou alugadas.
Agora, as famílias dos bombeiros são as moradoras dos apartamentos ainda disponíveis. Os residentes e donos vão poder mantê-los, mas quem tinha alugado terá de entregá-los ao Estado.
Jannis Sapicas conta que a polícia não deu nenhum aviso prévio antes de confiscar seu prédio de 11 apartamentos em Bello Campo, um bairro de classe média em Caracas. Lá, os policiais colocaram 23 pessoas e advertiram a Sapicas que não retirasse nada da propriedade. O problema é que sua firma de ar condicionado funciona no porão do prédio. O empresário entrou com uma ação judicial, mas até agora não recebeu explicação sobre como o governo vai pagá-lo.
Muitos venezuelanos em áreas pobres ficaram sem casa devido a fortes chuvas que caíram logo depois do Natal. Autoridades municipais defendem que o estado de emergência declarado com a tempestade lhes dá o direito de resolver rapidamente a escassez imobiliária.
- Os proprietários estão fazendo especulação com os preços dos prédios ao mantê-los desocupados - justifica Alexander Nebreda, membro do conselho municipal.
Chávez enfrenta críticas também do exterior. Ontem, o presidente do Peru, Alejandro Toledo, acusou-o de se intrometer nas eleições presidenciais de abril, ao apoiar o ex-tenente-coronel Ollanta Humala, e criticar a direitista Lurdes Flores.
- Chávez é o presidente da Venezuela, não da América Latina. Independentemente de todos os petrodólares que tenha, não tem o direito de desestabilizar a região - vociferou.