Título: Moradores perdem tudo com a chuva
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 30/01/2006, Rio, p. A13,14

Na noite da última sexta-feira, a comerciante Maria Mendes Mariano Braz, 40 anos, atendia aos clientes no bar em frente a sua casa, na Rua Pio XL, número 49, quando começaram as primeiras gotas de chuva. Por volta das 19 horas ela pegou o rodo para retirar a água que se espalhava pelo chão. Às 19h15, quando foi até o quintal buscar tábuas de madeira para conter a enxurrada, foi surpreendida por um estrondo: o muro de um ferro-velho vizinho despencou e toda a água empossada entre as paredes do local invadiu a casa de Maria. Minutos depois, a inundação atingiu 1,5 metro de altura em todos os cômodos da casa. - Meus filhos seguravam nas grades da janela para não serem levados pela correnteza. Eu fiquei desesperada, porque não conseguia chegar até eles, já que a força da água era muito forte. Foi um vizinho que nos socorreu - contou Maria.

Com a tempestade, ela perdeu três televisões, um computador, geladeira, microondas, fogão, além de livros de estudo e brinquedos dos filhos e todos os documentos da família. Ontem, os cinco cômodos casa ainda estavam encobertos de lama. Assim como Maria, os moradores das casas de número 39 e 59 da mesma rua ficaram praticamente desalojados com o temporal.

- Agora somos todos indigentes. Nossos documentos foram embora com a água, junto com tudo o que consegui acumular em trinta anos de trabalho - desabafou Jadir de Idelfonso Braz, 44 anos, marido de Maria.

Os moradores da Rua Pio XL acusam o dono do ferro velho vizinho de não ter aberto o portão para escoar a água. Com isso, o muro não aguentou a pressão e desabou. Sem obter ajuda dos órgão públicos - desde sexta-feira Jadir tentava contactar a Defesa Civil -, os donos das casas destruídas pela água fecharam a Avenida Itaoca, colocando fogo em pneus e pedaços de madeira. Momentos depois, a Defesa Civil Municipal e os bombeiros do Quartel de Ramos estiveram no local para avaliar os estragos e as causas do desastre.

- Provavelmente foi a falta de escoamento que ocasionou o desabamento do muro. O rio que corre atrás do ferro velho está obstruído e, por isso, muita água caiu dentro do local. Sem a abertura do portão, ela ficou represada - afirmou o sargento José Luis Moreira, do quartel de Ramos.

Quem teve a casa inundada na noite de sexta-feira encontrou refúgio no bar de Eliane Rodrigues dos Santos, 38 anos, onde dormiram mais de 30 desabrigados. Localizado a 40 metros da casa de Maria e Jadir, o bar também foi invadido pela água, mas em menores proporções.

- A água parecia brotar da parede. Felizmente consegui salvar muitos móveis e ajudar meus vizinhos - disse Aleda Rodrigues, 64 anos, mãe de Eliane, enquanto apontava uma infiltração na parede do quarto da filha.

Ontem, no Bairro de Higianópolis, muitas ruas continuavam repletas de lama. A doméstica Maria do Socorro Santana, 38 anos, lavava o quintal de casa com os filhos e o marido, enquanto os garis da Comlurb trabalhavam na calçada. Moradora da Rua Santa Mariana há 5 anos, ela tem sua própria rotina para os dias de chuva:

- Quando eu percebo que vai chover, saio mais cedo do trabalho e, em menos de meia hora, suspendo todos os móveis e eletrodomésticos.

Da mesma forma que Maria do Socorro, os moradores mais experientes cansaram de esperar uma solução dos governantes. Eles instalaram em frente as casa, portas de ferro que barram, mesmo que minimamente, a entrada da águas.