Título: Saddam discute com juiz e é expulso
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Fonte: Jornal do Brasil, 30/01/2006, Internacional, p. A8
Palavrões testam Abdel Rahman em primeira sessão
BAGDÁ - A oitava audiência do julgamento do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein foi cancelada depois de uma discussão entre o ex-ditador o juiz que presidia a sessão.
O novo juiz Rauf Rachid Abdel Rahman mostrou firmeza ao ordenar a retirada dos quatro acusados principais, entre eles Saddam Hussein. O julgamento, que já foi comparado ao dos nazistas em Nuremberg, transformou-se numa comédia pastelão.
- Quero sair da sala! - gritou Saddam.
- Vá. - respondeu o juiz.
- Dirigi o país durante 35 anos e você me ordena a sair - contestou o ex-presidente iraquiano.
- Eu sou o juiz, você é o acusado e deve me obedecer.
- Você é iraquiano. Não pode me dar ordens neste tom. Eu o governei durante 35 anos - gritou, enfurecido, Saddam.
Depois do bate-boca, o ex-ditador deixou a sala escoltado por funcionários do tribunal.
Na audiência, duas mulheres prestaram depoimento sobre as torturas e maus-tratos cometidos contra os habitantes das aldeias xiitas de Dujail, ao Norte de Bagdá, após um ataque contra um comboio do ex-presidente em 1982.
O julgamento é presidido pela primeira vez por Abdel Rahman, depois de semanas de adiamentos e de polêmica sobre a independência dos juízes e a credibilidade do tribunal.
O juiz curdo Rizkar Amin, no julgamento desde outubro do ano passado, pediu demissão ao ser criticado por dirigentes políticos pela suposta falta de firmeza com os acusados. A defesa alegou ataque à independência da Justiça.
O novo juiz, também curdo, começou bem aos olhos de quem deseja mais rigor. Nascido em 1941, é natural de Halabja, que em 1988 foi bombardeada com armas químicas pelos homens de Saddam.
Antes do bate-boca entre Saddam e o juiz, Barzan Ibrahim al-Hassan Al-Tikriti, meio-irmão do ex-ditador e um dos co-acusados, foi expulso da audiência por ter pronunciado palavrões.
Al-Tikriti, ex-assessor presidencial, começou a fazer uma longa declaração sobre seu estado de saúde quando o juiz ordenou que se calasse e declarou que examinaria a situação.
O acusado continuou seu discurso e o juiz ameaçou que se falasse mais uma palavra seria expulso. Ele prosseguiu, apesar da advertência, e o juiz ordenou aos guardas:
- Retirem-no.
Al-Tikriti já havia pronunciado ''f.d.p.'' no tribunal, provavelmente para testar a autoridade do novo juiz.
Os advogados de defesa decidiram abandonar a sala, apesar da advertência do magistrado de que se saíssem não seriam autorizados a retornar. O juiz nomeou advogados de ofício para o restante da audiência.
A audiência, exibida pela televisão com meia hora de atraso para controle do tribunal, foi bruscamente interrompida no momento em que o juiz elevou o tom de voz.
Saddam Hussein e sete assessores são julgados pela matança de 148 aldeãos xiitas em Dujail (ao Norte de Bagdá), em represália a um ataque contra o comboio presidencial durante uma visita ao local em 1982.
A próxima audiência está marcada para 1º de fevereiro. Os advogados de defesa dizem que não estarão presentes.
- A principal razão é porque o tribunal foi agressivo com nossos clientes e com os advogados - disse Najib al Nuaimi.