Título: Quem trabalha ganha pouco
Autor: Mariana Santos e Renata Moura
Fonte: Jornal do Brasil, 13/01/2006, País, p. A3
Nem só de remunerações milionárias e de salários dobrados durante as convocações extraordinárias vive o Congresso. Apesar de trabalharem diariamente ao lado de deputados e senadores, faxineiros, copeiros, controladores de almoxarifados e outros servidores terceirizados na Câmara e do Senado passam ao largo de todas as vantagens financeiras. São pessoas comuns, humildes, que batem ponto todos os dias e recebem pouco mais de um salário mínimo por mês. E, mesmo convivendo diariamente com importantes personagens do cenário político, os funcionários não têm idéia do que se passa nos bastidores de tanto escândalo.
- Nossa, nem sei o que faria se ganhasse R$ 25,6 mil. Comprava uma casa para minha filha, mãe dos meus dois netos que não tem onde morar - imagina Luíza Barbosa, 64 anos, 17 deles no almoxarifado na Câmara.
Mais indignado, o faxineiro João Rodrigues, 40, acha que, comparativamente ao resto do Congresso, seu salário é muito pequeno. Há 11 anos, ele trabalha todos os dias para manter impecáveis os corredores do anexo 2 da Câmara, onde funcionam as comissões especiais. Ainda assim, ele mal sabe quem é Marcos Valério Fernandes de Souza, responsável pelos repasses milionários ao caixa 2 do PT.
Não são apenas os parlamentares que faturam com a convocação extraordinária. Além dos R$ 25,6 mil pagos a cada deputado e senador, nos R$ 100 milhões orçados para gastos durante a interrupção do recesso parlamentar estão os benefícios repassados a servidores de carreira e a cargos de chefia, que também constam na lista de beneficiados com uma remuneração extra neste período. No entanto, diferentemente dos parlamentares, a maior parte dos funcionários só começa a receber quando o plenário voltar a funcionar - na próxima segunda-feira.
Os cerca de mil funcionários da Câmara que exercem cargos de chefia têm direito à complementação de aproximadamente 10% do salário parlamentar durante o trabalho no recesso. O valor corresponde, para cada contratado, a R$ 2.560 brutos. O gasto total previsto é de R$ 1,5 milhão.
Já os outros 16 mil servidores da Casa precisam do endosso da Mesa Diretora para receber as gratificações extras. O cálculo, neste caso, é feito com base no número de sessões deliberativas - em cada dia de trabalho, o servidor ganha dobrado. A média salarial da Câmara é de R$ 6 mil e do Senado, que segue a mesma regra, R$ 10 mil.
Por conta da ociosidade no Congresso, alguns departamentos e lideranças partidárias fizeram um esquema de rodízio: metade trabalha nas duas primeiras semanas e, a outra, nos últimos 15 dias. A ordem é de que no dia 16 de janeiro, quando iniciam as sessões plenárias, todos estejam a postos.
Na Secretaria-Geral da Mesa da Câmara o revezamento só funcionou nas semanas de Natal e Ano Novo.