Título: A peregrinação mortal do Islã
Autor: MINA, Arábia Saudita
Fonte: Jornal do Brasil, 13/01/2006, Internacional, p. A11
Assim como acontece há vários anos, a peregrinação anual dos muçulmanos a Meca (hajj) foi marcada pela tragédia. Pelo menos 345 pessoas morreram e mais de mil ficaram feridas em um tumulto na entrada Leste da ponte Jamarat, em Mena, enquanto os peregrinos tentavam realizar o ritual de apedrejamento, entre o meio-dia e o pôr-do-sol. No ano que vem, o governo promete inaugurar uma outra ponte, para evitar incidentes como este.
- O tumulto foi resultado do fato de muitos pertences dos fiéis terem caído no chão e do grande número de peregrinos insistirem em fazer o apedrejamento à tarde - afirmou o ministro da Saúde Hamad bin Abdullah al Manei.
A televisão estatal Al Ekhbariyah noticiou que a maioria das vítimas é do Sul da Ásia.
Mais de 2,5 milhões de peregrinos participam este ano do hajj, considerado uma obrigação para qualquer muçulmano em boas condições de saúde, a ser cumprida pelo menos uma vez na vida. Muitos carregam seus objetos pessoais a todos os lugares, representando mais riscos porque param para pegar coisas que caem no meio da multidão. Além disso, a maioria prefere seguir o exemplo do profeta Maomé e realizar o apedrejamento depois das orações do meio-dia da quinta-feira.
O egípcio Amr Gad tem outra versão para a causa da tragédia, a segunda deste ano - na semana passada, 76 pessoas morreram no desabamento de um albergue em Meca:
- As pessoas que morreram ontem estavam em um acesso, tentando chegar à ponte. Mas uma onda de gente veio da outra direção tentando sair do local - conta a testemunha.
Outros contam que a agitação começou depois que malas caíram de um ônibus em movimento - embora a área da ponte fique fechada ao tráfego. Os passageiros desceram correndo para pegar os pertences, gerando pânico entre os demais peregrinos.
A ponte Jamarat já havia sido palco de um incidente parecido, em 2004, quando 250 fiéis morreram ao se aglomerar para atirar pedras contra três pilares, que representam o diabo. Segundo a tradição islâmica, apedrejar as colunas de madeira livra os homens do pecado.
Depois do acidente de 2004 - motivado pelo repentino afunilamento da estrada que levava à ponte - a Arábia Saudita reformou a área de Jamarat, no deserto de Mina, fora da cidade sagrada de Meca. Aumentou os alvos do apedrejamento, ampliou a área de pedestres em solo para o equivalente à largura de quatro pistas de estrada, colocou quatro rampas de acesso e mobilizou 60 mil pessoas na segurança do evento. No ano que vem, a ponte será substituída por outra mais elaborada, com um sistema de entradas e saídas em quatro níveis. O custo da obra é de US$ 1,1 bilhão.
Apesar das reformas, o número de mortos de ontem só é menor do que o incidente de 1990, quando 1.426 peregrinos morreram durante um tumulto em um túnel que levava aos lugares santos do Islã.
- Vi pessoas se jogando sobre as outras - contou o também egípcio Suad Abu Hamada. - Os corpos eram empilhados e a polícia os jogava em caminhões-frigorífico. Eram tantos que nem consegui contar.
- Se o hajj é um dever de todo muçulmano, a segurança na peregrinação é um dever do governo - criticou a iraquiana Iftikhar Hussein.
Preocupados com o histórico de mortes no hajj, clérigos xiitas divulgaram recomendações para que os fiéis fizessem o apedrejamento pela manhã. Muitos xiitas do Iraque, Irã, Líbano e Paquistão seguiram o conselho e foram a Jamarat logo depois do amanhecer.
Mas clérigos sunitas da Arábia Saudita, que seguem a Wahhabi - uma interpretação fundamentalista do Corão -, incentivaram os peregrinos a seguirem a tradição de ir após o meio-dia. Depois, é hora de fazer uma última visita à Grande Mesquita de Meca, como determinou Maomé, há 1.400 anos.