Título: Segundo mandato à vista
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 30/01/2006, País, p. A3

BRASÍLIA - À sombra das boas notícias para o governo no início do ano eleitoral - como o crescimento nas pesquisas de intenções de voto, aumento das taxas de emprego e renda, fim da verticalização, repercussão favorável da operação tapa-buraco - Lula aderiu à dieta das proteínas, emagreceu 11 quilos, recuperou a auto-estima e, em conversas reservadas, se diz mais ''vivo do que nunca'' para concorrer a um segundo mandato.

Até as críticas, consideradas ''descabidas'' por Lula, como as do suposto uso eleitoral das operações tapa-buraco, passaram a incomodar menos.

- É uma estratégia de governo (a liberação da verba para estradas entre outras). Não uma estratégia eleitoral. Seguramos no iní cio porque era necessário - afirma, lembrando que o arrocho nos primeiros anos de governo possibilitou a quitação da dívida do Brasil com o FMI.

De bem com a vida - e com os rumos do governo - Lula tem se dado a requintes que não se permitia. Como o de se apresentar como o nome mais competitivo na disputa eleitoral. Questionado por um ministro sobre a verticalização - regra pela qual as alianças nos estados devem observar a lógica nacional - disse que, embora preferisse o fim da norma, se considerava ''o único candidato com condições de ganhar eleição com ou sem verticalização''.

- Não preciso da regra para me tornar um candidato competitivo, ao contrário de Serra, Garotinho e Alckmin - disse Lula segundo um auxiliar.

Para o presidente, se a verticalização for mantida, Garotinho, por exemplo, não passaria dos cerca de 12 milhões de votos, alcançados nas últimas eleições.

Embora torça para que a ala governista do PMDB consiga isolar a pré-candidatura de Garotinho à Presidência, Lula, em conversas com ministros do núcleo político, demonstrou preocupação em não obstruir os canais de diálogo com o ex-governador do Rio já imaginando uma possível aliança nas eleições.

- Lula não quer fechar as portas, não quer carimbá-lo como adversário - disse um auxiliar.

A tentativa de reabertura de diálogo com Garotinho ocorre num momento em que Lula trabalha para ter em seu palanque, mesmo que informalmente, setores do PMDB. Lula sabe que, hoje, o único nome do partido capaz de disputar para valer sua sucessão é Garotinho, que figura com 15% nas intenções de voto.

Garotinho concentra a maior parte de seus votos na mesma faixa eleitoral de Lula, ou seja classes C e D, é bom comunicador e, em geral, tem bom desempenho nos debates de rádio e TV. E apesar de ter apoiado Lula nas eleições de 2002, hoje é um dos críticos mais ferrenhos da política econômica do governo.