Título: Lula teme encontro do PT
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 30/01/2006, País, p. A3

Com o humor recuperado pelo crescimento do emprego e da renda, presidente tem um receio nos planos de reeleição: o ''fogo amigo''

BRASÍLIA - Depois de meses debaixo de artilharia pesada por obra da crise política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vê revigorar em si o desejo de concorrer à reeleição. Segundo um ministro que esteve com Lula na quinta-feira, o presidente exala bom humor. Seu estado de espírito é apenas comparável aos primeiros três meses de governo, disseram ao Jornal do Brasil lideranças políticas que privaram da companhia presidencial nas últimas semanas. Nunca esteve tão satisfeito com o andamento da máquina governista. Diz que o governo colhe agora os frutos de três anos de um arrocho necessário. E chama o atual momento de uma ''nova fase''.

Mas a despeito do nítido bom humor dos últimos dias, o que ainda tira o sono de Lula é o PT. Com receio do que pode acontecer no grande encontro do partido entre os dias 28 e 30 de abril, o presidente já pediu aos ministros que municiem os petistas com números sobre as realizações governo.

Com a ''blindagem'', Lula quer evitar que, num momento de boas notícias, o Planalto seja bombardeado pelo chamado ''fogo amigo'' encarnado por algumas facções petistas. Há um temor de que as críticas sejam direcionadas sobretudo à política econômica do governo.

A principal tarefa do Encontro Nacional será debater e aprovar as diretrizes do Programa de Governo 2007 - 2010, definir a política de alianças e a organização do partido para a campanha eleitoral. O encontro ocorrerá na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo, no centro da capital paulista.

O PT também pressiona para que alguns secretários executivos ligados ao partido sejam efetivados na próxima reforma ministerial. O partido também trabalha nos bastidores para recuperar o ministério da Saúde, hoje nas mãos do PMDB. Sobre o assunto, Lula costuma dizer que não vai tomar nenhuma decisão sob pressão. O presidente está concluindo as conversas com os ministros-candidatos que devem se desincompatibilizar até o fim de março para poderem concorrer em outubro.

Durante a semana, o presidente também não gostou da resistência do PT em acompanhar sua orientação pelo fim da verticalização. Para virar votos em favor da derrubada da regra, teve de escalar os deputados Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), Arlindo Chinaglia (PT-SP), líder do governo, além do presidente do PT, Ricardo Berzoini.

Além das boas notícias do início do ano eleitoral, uma conversa durante a semana com líderes do PMDB serviu como um bálsamo para a alma do presidente. Lula soube que avaliações dos magos das pesquisas eleitorais, o diretor do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, e o sociólogo Antonio Lavareda, apontariam para um novo crescimento nos levantamentos de intenções de voto por causa da antecipação do pagamento do novo salário mínimo de R$ 350 reais e pagamento da dívida ao FMI.

Nas pesquisas, ampliaria ainda mais a vantagem sobre Serra e Alckmin. Os mesmos levantamentos revelariam que o povo, já saturado da CPI, se prepara para a Copa do Mundo e só vai pensar realmente em eleição após o evento futebolístico.

O contraste entre duas avaliações tão distintas num curto espaço de tempo - o desalento da passagem do ano e os auspiciosos dois primeiros meses de 2006 - provoca euforia nos governistas mais incautos, mas também lança luz sobre o imponderável que poderá marcar as eleições presidenciais.

Há pouco mais de um mês, o cenário sombrio mergulhava o presidente num mar de incertezas sobre o poder de reação do governo e sua real capacidade e fôlego político para renovar o mandato. No início de janeiro, numa conversa com um ex-ministro, companheiro para todas as horas, Lula, abatido, soturno, falava com seriedade sobre a hipótese de prescindir da reeleição. Reclamava da desarticulação do PT e da dificuldade em costurar alianças e palanques fortes no estados. No fim da semana, o Palácio do Planalto respirava a certeza de que, a persistir o ritmo das boas novas, Lula entra na campanha mais uma vez como favorito.

Nem tanto ao mar ou à terra, Lula, segundo auxiliares, mesmo invadido pelo otimismo, tem consciência do árduo caminho a percorrer até um eventual novo triunfo nas urnas. Por isso tem sido rigoroso nas cobranças de resultados a ministros e auxiliares. Embora acredite ser o candidato mais competitivo, acha mesmo que a eleição será o retrato do que o governo produzir este ano.