Título: União Européia ao Irã: 'Não há mais conversa'
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Fonte: Jornal do Brasil, 13/01/2006, Internacional, p. A12
A União Européia e os EUA anunciaram oficialmente a intenção de levar o programa nuclear do Irã ao Conselho de Segurança da ONU. Com frases de efeito dando o tom da urgência de se impor limites ao presidente Mahmoud Ahmadinejad, os ministros das Relações Exteriores da Alemanha, Grã-Bretanha e França, em Berlim, endossados pela secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, fizeram coro.
-Eles passaram de todos os limites. Sabiam que sofreriam as conseqüências. Não há mais conversa - resumiu o alemão Frank-Walter Steinmeier.
A decisão vem dois anos após o início das negociações diplomáticas com o Irã para tentar dissuadir o país do projeto. O temor do Ocidente sempre foi o de Teerã desenvolver paralelamente a tecnologia bélica nuclear. O Irã dizia que tem fins pacíficos. Nem a estratégia ocidental funcionou, nem os iranianos conseguiram aplacar as desconfianças da Europa e EUA.
O último movimento do ultraconservador Ahmadinejad foi na terça-feira, quando retirou os lacres de sua maior e mais moderna usina nuclear, a de Natanz. Eram selos impostos pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a quem o grupo dos três países europeus já pediram uma reunião de emergência.
O ato foi considerado a gota d'água, num contexto que especialistas consideram o maior desafio desde a ofensiva no Iraque, que, também, vai colocar em questão a união dos países ocidentais. Com um detalhe:
- Os passos posteriores foram trabalhar para trazer outros países para o nosso lado - Condoleezza Rice disse recentemente.
A secretária se referiu, por exemplo, à Rússia e China, que têm vínculos comerciais importantes com o Irã e sempre resistiram a impor sanções ao país antes de esgotar todas as possibilidades diplomáticas. A Rússia, por exemplo, chegou a propor que enriqueceria urânio para as usinas nucleares iranianas como forma de demonstrar que o país-aliado tem boa-vontade.
Mas há quem diga que mesmo a radicalização de Alemanha, França e Inglaterra é, no fundo, parte do jogo diplomático. Exemplo disso é o fato de ontem, em Berlim, ninguém ter falado em sanções objetivas. Só em ''retirar propostas da mesa de negociações''. Uma delas seria, como lembrou o ministro das Relações Exteriores britânico, Jack Straw, a entrada do Irã na Organização Mundial de Comércio (OMC).
- O Ocidente começou a jogar tarde e está entregando o jogo aos iranianos - opina Abbas Milani, diretor do departamento de estudos iranianos da Universidade de Stanford.
Milani lembra, ainda, que o Irã tem feito acordos comerciais que envolvem o petróleo com vários países em troca de apoio político e espalhou suas atividades nucleares em cerca de 300 diferentes áreas pelo país, além de ter comida e remédios em estoques suficientes para o caso de qualquer boicote. Não é, portanto, uma luta fácil, que, se for, de fato, travada, ainda afetaria o mercado mundial de petróleo.
Também seria um lance político a retórica de Ahmadinejad, que já chamou o Holocausto de ''farsa'' e disse que Israel deveria ser ''riscado do mapa'':
- O Irã testa para ver até onde pode ir - avalia o alemão Ruprecht Polenz, ligado ao governo de Angela Merkel.
Depois da reunião de Berlim, o vice-secretário do Supremo Conselho Nacional de Segurança do Irã, Abdolreza Rahmani-Fazli, declarou oficialmente à imprensa que ''o país não está preocupado'' com as ameaças do Ocidente.