Título: Remessas crescem 73% com dólar baixo
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Fonte: Jornal do Brasil, 20/01/2006, Economia & Negócios, p. A19

Saldo nas contas externas atinge melhor resultado da história, mas investimento produtivo cai 16%

BRASÍLIA - Nunca as multinacionais instaladas no Brasil renderam tantos ganhos para suas matrizes como em 2005: as remessas de lucros e dividendos para o exterior somaram US$ 12,686 bilhões, o valor mais alto desde o início da série calculada pelo Banco Central, iniciada em 1947. Trata-se de crescimento de 72,9% em relação ao resultado de 2004. Os números não impediram, porém, que as contas externas brasileiras encerrassem o ano passado com saldo recorde. Em 2005, o superávit nas transações correntes - conta que inclui a balança comercial (exportações menos importações), a balança de serviços (gastos com viagens, pagamento de juros e remessas de lucros) foi de US$ 14,199 bilhões.

O recorde foi alcançado mesmo com a queda de 15,9% do dólar em 2005. A alta do real barateia os preços dos produtos brasileiros em dólar, além de tornar mais vantajoso para as multinacionais converter recursos para a divisa americana e enviá-los à matriz.

- Por enquanto, não há grandes problemas, mas já há sintomas do efeito do câmbio, como no caso das viagens e das remessas de lucros - avaliou Paulo Nogueira Batista Jr., professor da FGV-SP.

A queda do dólar, para o economista, é reflexo dos elevados juros praticados no Brasil, que acabam por atrair um grande volume de capital para o país e, assim, distorcem a taxa de câmbio.

- Falta um pouco de bom senso ao Banco Central. A política de juros é uma barbaridade - disse Batista Jr, acrescentando que isso pode pôr em risco o ajuste externo.

Em 2005, o saldo em transações correntes ficou positivo pelo terceiro ano seguido, mas, segundo analistas, deve começar a perder força daqui para a frente. Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, a esperada recuperação da economia brasileira deve provocar um aumento mais forte nas importações neste ano.

A projeção do BC é que as importações cresçam 17,4% em 2006 e cheguem a US$ 89 bilhões. Já as exportações devem aumentar somente 5%, para US$ 124,5 bilhões. Confirmadas as estimativas, o superávit em transações correntes deste ano deverá ser de US$ 6,1 bilhões.

Na lista de más notícias, o investimento produtivo despencou 16% entre 2004 e 2005, para US$ 15,193 bilhões. O resultado ficou abaixo do esperado pelo Banco Central (US$ 16 bilhões).

Ainda assim, o número não é visto de forma negativa pelo chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.

Lopes ressalta ainda que a queda ocorrida no ano passado reflete um efeito estatístico que distorceu os números de 2004. Naquele ano, a fusão entre as cervejarias AmBev e Interbrew foi feita por meio de uma troca de ações entre as duas companhias - a empresa brasileira recebeu ações da sua parceira belga e vice-versa. No entanto, parte da operação foi finalizada este ano, o que também deve ter impactado as contas do investimento direto este ano.