Título: Haiti: Em busca de uma saída
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 14/01/2006, Opinião, p. A10
O governo, a diplomacia e as Forças Armadas do Brasil imergiram num labirinto sem par: o Haiti. Como a ação dos Estados Unidos no Iraque, a missão do Brasil naquele país soube entrar mas não sabe como sair. Os resultados - a cada dia tal constatação parece mais evidente - são perturbadoramente negativos. Sem horizontes um ano e meio depois de iniciada, a missão que seria de reconstrução do Haiti está ameaçada de acabar, deixando os haitianos do mesmo modo que os encontrou: sem instituições, sem líderes, sem paz e sem rumo político nem econômico. Além de engolfados pelo perigo perene de uma guerra civil. O volume de recursos prometidos pelos países ricos, sublinhe-se, nunca chegou de fato. Assim, a ação de reconstrução transformou-se em mera missão militar. O Exército vê-se envolvido numa ação de polícia, num país dominado por uma guerra de crimes urbanos - entre gangues, miséria e seqüestros. O resultado é a necessidade de uma revisão sem precedentes da doutrina militar - conseqüência já constatada no Iraque, processo sobre o qual há dúvidas se está bem compreendido nas Forças Armadas. De lá e de cá.
O impasse reafirma-se pelas divergências no próprio governo. O ministro da Defesa, José Alencar, quer estabelecer a data de saída do Brasil. O Itamaraty refuta a idéia. Há uma agenda justificável, segundo o ponto de vista da diplomacia brasileira: a ambição de ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU e conduzir um processo de realinhamento político entre as nações. Uma agenda fadada ao fracasso e à irrelevância - tanto quanto a ação no Haiti. Enquanto o Conselho mantiver o peso atual, é difícil imaginar que o Brasil alcançará um lugar ao sol. A concessão de poderes, por meio da ampliação do Conselho de Segurança, é hoje pouco provável.
O ceticismo tem uma agravante: a proximidade das eleições haitianas. René Preval lidera as pesquisas eleitorais. Visto com desconfiança, ele é considerado aliado do ex-ditador Jean-Bertrand Aristide. Uma vitória de Preval pode significar a volta de Aristide. O Brasil ainda luta com a Jordânia para saber quem liderará a missão após a morte do general Urano Bacellar. Uma disputa sem sentido. Os militares brasileiros agiram até aqui num ambiente de convulsão social. Podem reagir à sustentação da crise ou deixar a liderança para que outros países assumam sua cota de responsabilidade.