Título: Energia, desafio para toda a região
Autor: Solange Monteiro
Fonte: Jornal do Brasil, 15/01/2006, Internacional, p. A14
Fonte da maior indisposição do país com a Argentina em 2004, que chegou a reduzir 60% do fornecimento de gás que tinha contratado para o Chile, comprometendo a indústria nacional, o tema energia poderá ser um dos grandes desafios para o próximo presidente no âmbito externo tão logo o inverno se aproxime.
- Esse não é só um problema de Bachelet ou da Argentina, mas de toda a região - afirma o porta-voz da candidata, Tomás Jocelyn-Holt. - É preciso consolidar a rede de gasodutos entre os países, já que Bolívia pode abastecer todo o continente sul-americano pelos próximos 10 anos. E também buscar investimentos para novas explorações. No Peru, por exemplo, há 18 bacias que podem trazer combustível, mas hoje somente cinco são exploradas.
Jocelyn-Holt destaca, entretanto, que a falta de uma padronização no trato de tarifas e impostos e de convergência de políticas públicas na região são um entrave significativo para esse desenvolvimento. Não obstante, o porta-voz garante que, no que diz respeito à relação Chile-Argentina, tudo está bem encaminhado:
- Acompanhei a candidata há dois meses numa viagem e pude constatar a empatia entre Bachelet e Kirchner e sua mulher. Eles, inclusive, discutiram a possibilidade de criar uma força multinacional de paz, reunindo as forças armadas dos dois países.
No caso dos vizinhos do Norte, no entanto, há muito mais a se considerar, devido, sobretudo, a conflitos históricos que voltaram à tona em 2005: a definição de limites marítimos com o Peru e a cessão de uma saída ao mar para a Bolívia.
- Acredito que nesse tema Bachelet irá manter a posição neutra, de não admitir uma culpa que acredita não ter - avalia Paz Millet, professora do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile. - De qualquer forma, seria positivo encaminhar um diálogo político com vistas à criação de um pólo trilateral de desenvolvimento que envolva o Norte do país.
E tal diálogo político depende da expectativa sobre as eleições no Peru - já que, com Toledo, até problemas privados viraram assunto de Estado - e o posicionamento de Evo Morales, que toma posse logo depois do segundo turno chileno, frente ao vizinho. Para os analistas, qualquer declaração precipitada de Evo quanto à contenda marítima contra o Chile se voltará contra os interesses bolivianos.
- Evo necessita primeiro unir a Bolívia, pensar na dinâmica interna do País - diz Paz.
- Se não tiver sua casa arrumada e usar o discurso contra Chile para fortalecer-se internamente, não terá apoio internacional para ganhar a causa, e isso será fatal - analisa o cientista político Patrício Navia.
Sobre uma radicalização do discurso de Evo e de um futuro presidente do Peru que comprometa esse diálogo - já que Ollanta Humala, que divide a preferência de votos com Lourdes Flores, tem declarado seu vínculo com Chávez e Morales - o porta-voz de Bachelet é claro quanto à posição de sua candidata:
- Não acreditamos no preto ou no branco. Somos aqueles que acolhem todos os matizes para encontrar os pontos convergentes entre eles, e estamos dispostos a nos colocar a serviço dessa integração.
Para Navia, uma maior proximidade com o Brasil será fundamental para que o Chile de Bachelet consiga superar possíveis conflitos.
- O Chile terá de dedicar-se a conquistar o apoio sobretudo de Brasil e México, pois a nenhum dos dois interessa um conflito de maior proporção - diz Navia.
Para o porta-voz da candidata socialista, entretanto, o estreitamento de relações com o Brasil é fundamental, mas desde que o país abrace sua responsabilidade como potência sul-americana.
- O Brasil tem de assumir o rol que correspondeu à Alemanha na criação da União Européia, ou seja, saber que os resultados favoráveis ao continente virão a partir do momento em que esteja disposto a ceder - alfineta, indicando que, em assuntos de comércio multilaterais, os dois ainda seguem caminhos que nem sempre se cruzam.