Título: Entre a herança política e a renovação
Autor: Solange Monteiro
Fonte: Jornal do Brasil, 15/01/2006, Internacional, p. A14
As pesquisas de opinião pública divulgadas durante a última semana no Chile indicam que, ainda que por uma margem apertada de votos, a candidata do Partido Socialista Michele Bachelet, 54 anos, chegará ao segundo turno hoje com a vitória nas mãos. De acordo com o Instituto Mori, serão apenas cinco pontos de diferença na frente do candidato da Renovação Nacional Sebastián Piñera - principal acionista da companhia aérea LAN e dono do canal de TV Chilevisión -, da coalizão de partidos de centro-direita Alianza por Chile.
Para essa conquista, Bachelet não conta apenas com a boa avaliação de seu desempenho como ex-ministra do também socialista Ricardo Lagos nas pastas da Saúde e Defesa, na qual abraçou o desafio de reconciliar as Forças Armadas com a população chilena, que ainda alimentava a imagem das atrocidades cometidas durante o regime militar. O fato de ser mulher, agnóstica, separada, com filhos de pais diferentes parece pesar pouco num país que acaba de aprovar a lei do divórcio frente à promessa de continuidade de uma bem-sucedida gestão de Lagos - que deixa seu posto com históricos 75% de aprovação popular, segundo o mesmo Instituto Mori.
Nos quatro anos que terá à frente do país - dois a menos que Lagos, sem direito à reeleição -, o maior desafio de Bachelet será garantir a continuidade esperada pelos eleitores sem provocar desgastes para a Concertación - coalizão de centro-esquerda que agrega, entre outros, o Partido Socialista e o Social Democrata -, no poder desde a redemocratização, em 1990.
- Para isso, será importante que Bachelet leve a cabo promessas como a paridade de gênero no Gabinete e a ascensão de novas caras em seu governo, pois já são 16 anos do mesmo grupo no poder, e isso pode levar ao esgotamento - explica ao JB o cientista político Patricio Navia, professor do Centro de Estudos para a América Latina e Caribe da Universidade de Nova York.
Mas a continuidade também significa seguir com as reformas de Lagos, classificadas pelo próprio presidente como o fecho de ouro da transição democrática. Em 2005, Lagos conseguiu deixar seu nome marcado numa nova do Constituição, eliminando a assinatura anterior do ditador Augusto Pinochet, com uma reforma da qual constam 58 emendas - entre elas, além da redução do tempo de mandato presidencial, destacam-se o fim dos senadores vitalícios e designados, que pesavam contra a balança na aprovação de grandes reformas, e a volta do poder do presidente para destituir o comandante das Forças Armadas. No âmbito político, restará, ainda, ao futuro presidente o desafio de pôr fim ao sistema binominal, que compromete a representação democrática dentro das eleições parlamentares, moeda de troca do Partido Comunista para defender o apoio à Bachelet no segundo turno das eleições.
No campo econômico, a candidata terá nas mãos uma máquina em perfeito estado, onde se pode garantir uma blindagem contra mudanças mal geridas no futuro, graças a uma institucionalidade bem consolidada na qual se inclui a autonomia do Banco Central.
- Resta ao governo estimular mais o crescimento, além do investimento em educação, pesquisa e desenvolvimento, que são fundamentais para combater o alto nível de desigualdade na distribuição de renda registrado no país - lembra Ricardo Nuñez, economista da Universidade Central de Antofagasta.
Além disso, no segmento socioeconômico, ainda se espera de Bachelet uma reforma nas leis trabalhistas que contenha o excesso de subcontratação no país, e outra do tão aclamado regime privado de fundos de pensão (AFP) que, devido à informalidade e a falta de estabilidade, entre outros importantes fatores, ainda não conseguiu garantir aos pensionistas do Chile uma aposentadoria digna.
No campo externo, Bachelet tem em suas mãos a lição de casa que o presidente anterior deixou por fazer: um melhor relacionamento com os países de seu continente. No afã de colocar o Chile dentro mapa do livre comércio, Lagos conseguiu firmar tratados com países e blocos como EUA, UE, China, entre outros da Apec, mas deixou a vizinhança com o gosto de ver a ''chica bonita'' do bairro lhe dar as costas, ainda mais com seu alinhamento aos EUA em debates como o da formação da Alca.
- Para garantir um bom aproveitamento das vantagens comerciais conquistadas, é imprescindível contar com um modelo de integração entre os países sul-americanos - defende Tomás Jocelyn-Holt, porta-voz para assuntos exteriores do comando de Bachelet.
- Agora, teremos que ir além do foco comercial, buscando a integração física, sobretudo a energética dentro do Cone Sul, e, para isso, o diálogo político e o aprofundamento das preferências já alcançadas - analisa Jocelyn-Holt.