Título: A voz da montanha
Autor: MAURO SANTAYANA
Fonte: Jornal do Brasil, 20/01/2006, País, p. A2
O ácido debate em que se empenharam, ontem, no plenário do Senado Federal os senhores Aloizio Mercadante, Tasso Jereissati e Antonio Carlos Magalhães - com o envolvimento de outros parlamentares - serve para perceber as horas tumultuadas que iremos viver nos próximos meses. Não se trata, aqui, de examinar a natureza do conflito verbal - iniciado quando o senador por São Paulo tratava do negócio dos jogos de azar, para chegar ao mistério da morte do prefeito Celso Daniel --, mas de sua virulência. É nesses momentos difíceis que se exige a prudência dos moderados. Tancredo Neves se queixava, às vezes, de que é difícil combinar a coragem na defesa da dignidade pessoal e a prudência política. Muitas vezes, a defesa da dignidade pessoal se perde na violência, levando a tragédias pessoais ou coletivas. É o que devemos temer na agitada sucessão presidencial deste ano.
Há dois dias o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, levou à direção nacional do PMDB sua postulação à Presidência da República. Essa aspiração é o fato novo no panorama neste início de ano eleitoral. Fato novo porque oferece terceira opção, entre o PSDB e o PT. Mas, principalmente, porque é uma candidatura fora de São Paulo. Até agora, para um observador fora da intimidade do jogo político, o país parecia condenado, sem alternativas, a ser conduzido pelo mais rico dos estados brasileiros. O comando da vida nacional, como vem ocorrendo há 11 anos, seria de São Paulo, fosse com a reeleição de Lula, fosse com um dos dois candidatos tucanos, ungidos pela direção de seu partido, o governador Alckmin ou o prefeito José Serra.
Vamos esquecer os nomes, respeitáveis, com boa folha de serviços prestados ao país, e pensar em outros problemas. Até mesmo como contraponto à tão decantada globalização, a tendência deste início de milênio é o da ampla autonomia dos povos. Nesta mesma semana, a Espanha afronta crise militar, com a reivindicação federativa dos catalães e o saudosismo da ditadura centralizadora do general Franco. Os catalães querem ser mais do que uma região autônoma, e pretendem o título de nación no conjunto espanhol.
No Brasil, ninguém que ir tão distante, a não ser meia dúzia de fanáticos arianos do Sul, que - tal como Hitler queria - pretendem construir uma Germânia Austral no continente. O que o bom senso reivindica é respeito ao pacto federativo e à alternância de homens, idéias e regiões na direção do país. Na Primeira República cuidou-se, com esmero, para que não houvesse reeleição para o período imediatamente sucessivo, nem a eleição de um presidente coestaduano do chefe de governo que saía. A violação desse princípio, tentada pelo presidente Washington Luís, ao impor o nome do senhor Júlio Prestes como seu sucessor, levou ao conflito armado de 1930.
O senador Renan Calheiros, de outra facção do PMDB, desdenhou - segundo a imprensa - a postulação do senhor Rigotto, mas o fez, conforme se informa, em defesa de suas próprias razões - ele também quer ser candidato.
Falta, agora, a voz de Minas. As forças políticas do estado exigem ser ouvidas e querem participar ativamente da sucessão presidencial. O governador Aécio Neves foi o porta-voz dessa reivindicação ao dizer que a sucessão passa por Minas. Em muitos estados brasileiros, eminentes homens públicos esperam a manifestação dos mineiros, antes de assumir posição na escolha presidencial deste ano. Em 1860, quando o Império enfrentava dificuldades políticas muito mais amenas, Francisco Otaviano reclamou a presença dos mineiros na direção do governo, chamando-os aos brios: Oh formosa província de Minas, onde estão os teus homens?
Mais do que os partidos, são as forças políticas dos estados, em sua pluralidade ideológica e identificadas com sua história e sua forma regional de ver o mundo, que têm construído e conservado a República. E nisso nenhum estado foi tão presente na vida nacional, desde que portugueses e brasileiros do Norte e do Sul transpuseram rios e montanhas, para formar ali uma comunidade política, há mais de 300 anos. Aguarda-se a palavra de Minas.