Título: O sigilo do amigo
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 20/01/2006, Opinião, p. A14

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou dos deputados que integram a CPI dos Bingos a oportunidade de mostrar ao Brasil que há, de fato, interesse do Palácio do Planalto em drenar o lamaçal que tem atormentado o país nos últimos meses. A comissão, afinal, aprovou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Paulo Okamotto, presidente do Sebrae e amigo de Lula desde o período em que dirigia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, no fim dos anos 70. A medida será fundamental para que a CPI ilumine as muitas zonas de sombra que obscurecem a versão costurada às pressas por Okamotto - investigado por ter pago, entre dezembro de 2003 e março de 2004, uma dívida de quase R$ 30 mil do presidente com o PT. Por duas semanas, o Planalto e o partido não falaram sobre o dinheiro, até que, enfim, Okamotto garantiu ter quitado a dívida. Os senadores da CPI suspeitam que foi paga com dinheiro jorrado da cachoeira de Marcos Valério. Enxergam ainda uso indevido de recursos públicos para bancar despesas do presidente.

Maus presságios.

Na terça-feira, o economista e ex-petista Paulo de Tarso Venceslau depôs na CPI e envolveu o nome de Okamotto nas denúncias de caixa 2 do partido, produzido originalmente, segundo disse, com desvio de verbas de prefeituras conquistadas pela sigla a partir de 1993. Outro nome lembrado por ele foi o do advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, que segundo Venceslau era operador dos desvios de dinheiro de prefeituras para os cofres do partido. Teixeira foi convocado a prestar depoimento aos parlamentares.

O país anseia que o Palácio do Planalto contradiga os muitos indícios sugeridos até aqui de que não deseja a completa investigação dos episódios envolvendo Marcos Valério e o PT. Convém ao presidente e seus aliados escapar, por exemplo, da retórica habitual segundo a qual os atos da CPI devem ser creditados a meros truques eleitorais da oposição. Barrar as trilhas seguidas pelas investigações resultará tão-somente em desgastes adicionais: sobrarão argumentos e interrogações estendidos até a véspera das eleições.