Título: O caso do escorpião
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 23/01/2006, Opinião, p. D2

A descoberta de um escorpião no gabinete de um senador da República, aliás membro da Mesa Diretora do Senado, só poderia surpreender. Afinal, todos os que freqüentam o Congresso sabem que nele se conta com serviço de limpeza permanente e qualificado, que opera inclusive mediante um custo significativo para o Tesouro. Como se explicaria a presença de um escorpião em pleno Senado, trazendo riscos para todos? A explicação é o que assusta. O escorpião surgiu logo após um trabalho em que se fez necessário retirar divisórias e mexer no forro de áreas próximas. Em outras palavras, haviam sido feitas, nas proximidades do gabinete e até em paredes contíguas, obras precárias, em que se deixaram espaços semi-recobertos com estuque, fiação exposta a desgaste, frestas em contato com o exterior.

Guardadas as devidas proporções, trata-se de algo semelhante ao que conduziu - pelo menos segundo as primeiras suspeitas dos bombeiros - ao incêndio que destruiu parte do prédio do INSS, no Setor de Autarquias Sul. São obras feitas ao longo do tempo, mexendo-se em canos, fiação, tabiques, divisórias, tudo de forma precária e improvisada. Constatou-se, como o comprovou pesquisa da UnBl, que há um grande número de edifícios públicos em situação absolutamente precária, com risco de curto-circuitos, de todo tipo de acidente internos.

Citou-se o caso da Funasa, um prédio em que foram identificadas dúzias de gambiarras e em que o sistema elétrico apresentava problemas óbvios. Tudo indica que existam muitos e muitos outros em circunstâncias semelhantes ou até piores. Por isso mesmo recomenda-se a realização de uma grande blitz de órgãos ligados à Defesa Civil, inclusive dos bombeiros militares, para que se identifiquem e sanem esses problemas. Autoridades, funcionários, usuários de serviços públicos não podem estar expostos a acidentes por força da improvisação e do facilitário.