Título: Villa Grimaldi, nunca mais
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Fonte: Jornal do Brasil, 17/01/2006, Internacional, p. A8

''O que aconteceu aqui só os que viveram podem saber'', afirma Rafael, o zelador da Villa Grimaldi, o casarão usado como prisão secreta pela ditadura chilena onde 226 pessoas foram mortas e 4.500, torturadas. Uma delas era a jovem Michelle Bachelet, eleita domingo a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente do Chile.

O casarão - construído nos anos 30 - foi demolido pela ditadura, em 1988, mas ainda há vestígios do que foi e do parque que o cercava. Ao fundo, desse cenário, e bem perto, está a Cordilheira dos Andes.

Rafael cuida do que hoje é o Parque da Paz, no número 8.401 da Avenida José Arrieta, a Sudeste de Santiago. O que agora é um agradável sítio tem pássaros, roseiras e macieiras, que contrastam com o ambiente de terror vivido por muitos opositores do regime entre 1973 e 1978.

Lá, as pessoas eram horrivelmente torturadas - em muitos casos, até a morte - com métodos variados, que incluíam choques elétricos e a asfixia.

No fundo do parque ainda há uma pequena casa de pé, onde ficavam os agentes da Brigada de Inteligência Metropolitana e seus cães. E onde, ocasionalmente, prisioneiros eram torturados. Agora, é um pequeno museu, com fotos e objetos pessoais de alguns dos desaparecidos.

''São 17h45. (...) Espere-me na escola. Volto, acho, em meia-hora. Tchau, meu amor. Te amo. Carmen'' é um texto escrito à mão por Carmen Bueno pouco antes de ser detida e levada à Villa Grimaldi, onde morreu. O bilhete é um dos itens exibidos no museu.

''As pessoas que desapareceram ou foram assassinadas aqui amaram, criaram, cantaram, rezaram, choraram, brincaram, escreveram, leram...'' diz um cartaz.

Junto à pequena casa há uma torre - que funcionou como o tanque de água da vila antes de o lugar virar centro de torturas -, de três andares, divididos em vários cubículos de madeira de 70 x 70 cm e 2 metros de altura, onde era necessário entrar de joelhos e onde foram mantidas várias pessoas em regime de prisão permanente. Na torre também havia uma sala de torturas, e em suas paredes é possível ver os desenhos de ex-detidos descrevendo os métodos utilizados.

- E pensar que tem gente que ainda acha que tudo isso é mentira, é política, nunca aconteceu - lamenta o zelador do lugar.

Em abril de 1991, o Chile reconheceu oficialmente - através do informe da Comissão Verdade e Reconciliação - que a Villa Grimaldi foi um centro de torturas e desaparecimentos.

A Corte de Apelações de Santiago estuda desde novembro uma petição para processar o ex-ditador Augusto Pinochet por tudo o que aconteceu aos presos políticos da Vila durante sua ditadura.

A recém-eleita presidente do Chile chegou ao lugar com sua mãe em 10 de janeiro de 1975, depois de libertadas, cerca de um mês depois, exilaram-se na Austrália, e, depois, na Alemanha Oriental. Já de volta a seu país, foi vizinha de um de seus torturadores, oficial do Exército, no prédio em que morava, em Santiago.

- A tortura é terrível, principalmente do ponto de vista psicológico porque humilha a pessoa - comentou Bachelet anos mais tarde. (AFP)