Título: EUA e o cocaleiro do mesmo lado
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Fonte: Jornal do Brasil, 23/01/2006, Internacional, p. A9
Representante de Bush vai à posse e abre diálogo contra o tráfico
LA PAZ - Depois que foi eleito, o presidente Evo Morales disse que estava disposto a ¿perdoar¿ os EUA por anos de ¿humilhações¿. Também disse que estava aberto ao diálogo. No fim de semana de sua posse, teve um encontro oficial com o subsecretário de Estado para Assuntos da América Latina, Thomas Shannon, o que pode abrir precedente histórico nas relações do país onde a folha de coca é tradição com a superpotência para o combate ao narcotráfico. ¿ Estamos dispostos a começar um processo de diálogo para determinar a maneira através da qual os dois governos podem trabalhar juntos em uma agenda comum ¿ disse Shannon, que levou ao líder cocaleiro os cumprimentos oficiais do presidente americano, George Bush.
O encontro foi no sábado à noite na casa do novo presidente boliviano e durou mais de uma hora. Numa entrevista coletiva improvisada ao fim da reunião, os dois disseram que ainda não abordaram detalhes sobre o controle das plantações de coca na Bolívia ou a nacionalização do gás no país, e preferiram dar respostas superficiais. Shannon estava acompanhado do embaixador americano em La Paz, David Greenlee, e se disse ¿otimista¿. Morales estava com seu vice-presidente, Álvaro García Linera.
¿ É a primeira reunião com o representante do governo dos Estados Unidos, mas há duas ou três semanas tivemos encontros com o embaixador dos Estados Unidos. Esperamos que uma vez que nossas equipes de trabalho estiverem formadas, possamos avançar em diferentes campos. O representante vem desejar sucesso a um governo, e isso significa amplitude para debater muitos temas ¿ disse Morales.
Shannon comentou, por sua vez, que ¿foi importante nosso primeiro contato com o presidente eleito. O propósito era felicitá-lo, desejar-lhe êxito na sua presidência e assegurar que estamos dispostos a iniciar um processo para determinar a maneira como os dois governos podem trabalhar juntos.¿
Outro encontro histórico que Morales teve foi com Ricardo Lagos, presidente do Chile, país com o qual a Bolívia rompeu relações diplomáticas há décadas. É a primeira vez em mais de 50 anos que um líder chileno vai à posse de um presidente boliviano.
No encontro de ontem, os dois presidente disseram ter falado sobre tudo, ¿sem exceções e com realismo¿, mas não deram detalhes sobre o assunto que levou ao rompimento das duas nações: a derrota da Bolívia em uma guerra do século XIX que tirou do país o acesso ao Oceano Pacífico ¿ o Chile também tem relações problemáticas com o Peru, motivadas por questões territoriais.
Em entrevista, Lagos disse que chegou à Bolívia com uma postura de ¿fraternidade para olhar o futuro e construir uma agenda de aproximação¿.
¿ Chile e Bolívia vivem um tempo de confiança mútua ¿ apontou, ao citar os avanços registrados nas relações bilaterais como a eliminação do uso de passaportes nas fronteiras e a assinatura de acordo comercial que permitirá aumentar as exportações bolivianas.