Título: A implosão necessária
Autor: MAURO SANTAYANA
Fonte: Jornal do Brasil, 18/01/2006, País, p. A2
Teme a oposição e, com suas razões, a CPI das privatizações que o presidente da Câmara acaba de convocar, de acordo com os dispositivos constitucionais e regimentais. Alguns dos argumentos petistas para frustrar as investigações sobre as denúncias do senhor Roberto Jefferson são agora invocados pelos parlamentares da Oposição, acrescidos de outro, o de que a nova CPI ocorrerá em ano eleitoral. A promiscuidade entre a política e os negócios se tornou mais intolerável ainda depois que desabou o muro de Berlim. Se para outra coisa não servia o socialismo, servia para conter o apetite voraz do capitalismo ocidental, ao limitar o controle dos estados nacionais pelos donos do dinheiro. Hoje, a partir dos Estados Unidos, foi abolida a divisão ética entre o Estado e os governos, e entre os donos de dinheiro e os governantes. A desregulamentação da economia e a privatização do Estado, entregue às corporações financeiras e industriais, abastardou a atividade política.
O capitalismo moderno (exacerbado com o neoliberalismo) pretendia ser o contraponto do sonho socialista, mas ambos - conforme assinalou, há 35 anos, François Perroux, em uma de suas obras mais importantes (Aliénation et societé industriele) - tinham o mesmo problema, o de não entender que a economia deve ser subordinada à política. É preciso ver, na sociedade, as relações entre os seres humanos e não entre os seres humanos e a mercadoria (e sua equivalência, o dinheiro). Em suma, segundo a síntese de Perroux, ''a economia é a administração política em busca da vantagem de cada um e de todos''. Daí o papel importante do Estado, como expressão da comunidade política. Essa carência intelectual levou os dirigentes soviéticos, açulados pelo mito da industrialização, a emular o sistema capitalista de produção e a perder a identidade ideológica. Assim, o socialismo real perdeu o papel moderador que exercia, desde a Revolução de 1917.
É preciso reinventar tudo, da economia ao Estado, e, para isso, faz falta implodir o castelo de cartões de crédito em que se equilibra a sociedade contemporânea. Enquanto a nova corrupção norte-americana e européia não encontrar as suas CPIs, este ano poderá ser o da grande implosão no Brasil. Implosão dos partidos políticos, anêmicos de idéias e grávidos de estupros infecciosos; implosão do sistema fiscal e tributário concentrador; implosão da centralização política em Brasília, em agressão direta ao pacto federativo; implosão do sistema bancário, cujos lucros, adubados pelas taxas de juros do Banco Central, crescem a cada trimestre como metástases cancerosas no organismo nacional. Toda essa demolição pode iniciar-se com a nova CPI, se os seus membros tiverem consciência de sua responsabilidade histórica.
As CPIs, com todos os cuidados e reservas de seus dirigentes, são acompanhadas de perto pelos cidadãos. Eles já se encontravam incomodados pela limitação do inquérito anterior ao governo Lula, mesmo diante das evidências de que o método atual de financiamento das campanhas eleitorais, pelos recursos do caixa 2, vinha desde os gloriosos tempos tucanos. O financiamento das campanhas, com toda a ilegalidade, não é nada, diante dos escândalos da privatização. Não é nada no volume dos prejuízos causados ao povo brasileiro, e não é nada no atrevimento político dos que a planejaram e executaram. Há, além disso, o problema da soberania, ferida pela subordinação do governo aos ditames do Consenso de Washington, elaborado por operadores de Wall Street e burocratas do Departamento de Tesouro dos Estados Unidos. Quando a nação souber o que houve nessa entrega de seus bens, será difícil lhe conter a ira.
Voltamos ao ato essencial. Se os atuais parlamentares quiserem, na turbulência esperada, garantir a coesão nacional, terão que convocar, mediante emenda constitucional, assembléia nacional, exclusiva, autônoma, desvinculada de partidos e do atual Congresso, a fim de reconstruir juridicamente o Estado. Para ser autêntica, a escolha dos novos constituintes deverá ter base territorial, com a campanha financiada mediante recursos públicos.