Título: Fernando Henrique adotará estilo discreto no ano eleitoral
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 23/01/2006, País, p. A2

Orientado por marqueteiros, ex-presidente trabalhará mais nos bastidores

BRASÍLIA - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso irá frustrar quem o imagina na campanha eleitoral perto do pulsar das massas, de punhos cerrados, discursos eloqüentes, mangas das blusas recolhidas, figura fácil nos palanques e programas de TV com o objetivo de eleger o candidato tucano. De acordo com fontes da cúpula do PSDB, orientados por marqueteiros ligados ao partido, os tucanos já decidiram: Fernando Henrique participará da campanha tucana, mas com a discrição que lhe é peculiar, a fleuma da estratégia, nos bastidores. Algumas aparições em programas eleitorais e discursos em palanques poderão acontecer em momentos chaves da campanha, ao sabor das pesquisas de opinião, mas é certo que ocorrerão com pouca frequência. Pelo que ficou acertado em reuniões ao longo do ano, ao ex-presidente caberá essencialmente a tarefa de ser o principal fiador das alianças tucanas no plano nacional e nos estados e o grande eleitor na disputa entre o prefeito de São Paulo, José Serra e o governador Geraldo Alckmin pela candidatura à presidência pelo PSDB.

Mais do que pelo estilo que o caracteriza, essa decisão de preservar FH carrega viés eminentemente pragmático. A presença de ex-presidentes em campanhas eleitorais, sobretudo quando terminaram o governo bem avaliados, é capaz de exercer um fascínio irresistível sobre o eleitorado, podendo com isso até, em alguns casos, definir a eleição em favor do seu candidato do coração.

Mas, apesar de o legado da estabilidade econômica ser reconhecido até hoje pela população, a memória do governo FH ainda é muito prejudicial a uma candidatura do PSDB, revelam pesquisas qualitativas em poder de tucanos, pefelistas e até do Palácio do Planalto. Os últimos anos do governo tucano, sobretudo temas como o apagão, escândalo das privatizações, estagnação da economia, ainda estão vivos na memória do eleitor e, mesmo com a crise do mensalão, o governo Lula ainda é mais bem avaliado que o de FH.

¿ Se o PT resolver bater forte em FH realmente será contraproducente à campanha do candidato tucano. E ele (FH) vai acabar sendo forçado a aparecer na TV não para fazer campanha, mas para responder às críticas ¿ disse o cientista político da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer.

As mesmas pesquisas apontam que, entre Serra e Alckmin, o prefeito paulista pode ser o mais prejudicado, se a estratégia for levada a cabo pelo PT, por ter uma maior identificação com o ex-presidente. Serra foi ministro do Planejamento, da Saúde e candidato de FH nas eleições de 2002. Daí, o receio no Planalto do imponderável que pode se tornar uma eventual candidatura Geraldo Alckmin.

Foi a partir desses levantamentos, que Lula, orientado pelo publicitário e jornalista João Santana, passou a comparar os números de seu governo com o do antecessor. É fazendo o povo se lembrar dos últimos anos do governo FH que o Planalto espera neutralizar os avanços do prefeito de São Paulo, José Serra, e do governador Geraldo Alckmin, possíveis candidatos do partido à Presidência da República.

O pontapé inicial foi dado durante a semana. Em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV de 11 minutos de duração, Lula discorreu sobre a importância da quitação da dívida com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e aproveitou para citar uma série de outras conquistas de seu governo, como maior distribuição da riqueza nacional; aumento de empregos com carteira assinada e da massa salarial; os recordes mensais nas exportações; e os investimentos históricos na área social, que saltaram de R$ 7 bilhões em 2002 (último ano do presidente Fernando Henrique Cardoso) para R$ 22 bilhões em 2006 ¿ dinheiro que, segundo Lula, beneficia diretamente 40 milhões de pessoas no país.

Pesquisa Ibope divulgada quinta-feira foi coerente com essa avaliação. O Ibope simulou uma disputa presidencial entre Lula e seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Resultado: o ex-presidente teria hoje 14% das intenções de voto contra 38% de Lula e 15% do ex-governador do Rio Anthony Garotinho (PMDB).

A conveniência da participação de Fernando Henrique na campanha também chegou a ser discutida pelos mais emplumados tucanos durante as eleições de 2002. O temor era de que surtisse efeito inverso ao esperado. Ao fim e ao cabo, a contribuição do ex-presidente à campanha de Serra se limitou a uma declaração de apoio no horário eleitoral gratuito.