Título: Renan desqualifica Garotinho e Rigotto
Autor: Daniel Pereira e Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 18/01/2006, País, p. A5
Na contramão do movimento pela candidatura própria do PMDB à Presidência, um dos aliados preferenciais de Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), desqualificou ontem as pretensões do ex-governador do Rio Anthony Garotinho e do governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto. - É um tiro no pé. Garotinho e Rigotto são nomes respeitados, mas não empolgam por enquanto.
Rigotto se recusou a comentar a declaração do presidente do Senado. Ontem, numa tentativa de ampliar o leque de apoio à sua candidatura ao Planalto pelo PMDB, o governador almoçou em Brasília com o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos. Ouviu que a candidatura própria do PMDB é irreversível e que terá o apoio do colega pernambucano na disputa com Garotinho.
- A tese da candidatura própria e da realização da prévia cresce a cada dia. Isso é o que importa - declarou o governador do Rio Grande do Sul, que formalizará hoje sua pré-candidatura em cerimônia na Câmara, a ser realizada no início da tarde.
À noite, acompanhado pelos colegas de bancada, o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB), receberá em jantar o presidente Lula. A pedido do convidado mais ilustre, adepto da dieta da proteína, o prato principal será carne-de-sol. Como sobremesa, Lula, que estará acompanhado dos ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Jaques Wagner (Coordenação Política), tentará, mais uma vez, atrair o PMDB para sua chapa à reeleição. A missão é difícil. Mesmo os integrantes da ala governista, como o anfitrião Suassuna, afirmam que o PMDB terá candidatura própria.
O presidente já assimilou o recado. Ciente da possibilidade de fracassar na costura de aliança no primeiro turno, Lula trabalha com duas alternativas. Uma delas é conseguir o apoio em outubro de pelo menos parte do PMDB. A cizânia interna é parte da cultura peemedebista em eleições presidenciais e foi uma das razões que levaram candidatos como Ulysses Guimarães e Orestes Quércia a figurar na rabeira de pleitos realizados nas décadas de 80 e 90. A outra alternativa é convencer o PMDB a não lançar candidato à Presidência da República. Se isso ocorrer, o partido ficará livre para lançar candidatos nos estados e poderia fechar uma aliança branca com Lula. O caminho pode ser facilitado com a manutenção da verticalização.
Para influentes lideranças peemedebistas, como o deputado Geddel Vieira Lima (BA), mantida a regra que obriga as alianças nos estados a respeitar a lógica da parceria fechada em nível nacional, a candidatura própria do PMDB poderá se transformar em inconveniente para as pretensões eleitorais do partido. Gestos em favor do presidente não faltam no PMDB. Ontem, Suassuna citou com entusiasmo números sobre empregos, Bolsa Família e agricultura familiar, ressaltando a melhoria em comparação ao governo anterior. Desfiou o rosário para dizer, em seguida, que Lula será protagonista de uma recuperação de popularidade surpreendente neste ano.
Manifestações em favor da candidatura própria também não faltam. Uma mostra sobre como balança o coração do PMDB será dada na reunião da Executiva no fim do mês. O presidente do partido, deputado Michel Temer (SP), admite a possibilidade de adiar a prévia do dia cinco para, mais tardar, 19 de março. Integrantes da ala governista acham pouco. Dizem que a mudança não retira a condição de favorito de Garotinho na disputa. Pretendem um prazo maior para a definição do candidato, até para avaliar eventual recuperação de Lula. A persistir a data, a ala governista do PMDB tem um trunfo na manga para invalidar uma possível vitória de Garotinho. A instância que convocou as prévias foi a Comissão Executiva do partido. Mas, conforme interpretação de alguns integrantes do PMDB, pelo regimento apenas o diretório possuiria tal prerrogativa.