Título: Tecnologia perde peso nas exportações
Autor: Rafael Rosas
Fonte: Jornal do Brasil, 18/01/2006, Economia & Negócios, p. A17

O recorde da balança comercial brasileira em 2005 não foi suficiente para afastar alguns fantasmas do setor externo brasileiro. Pesquisa da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mostra que a participação de produtos de alta intensidade tecnológica, como aviões, chips de computadores e bens médico-hospitalares, diminuiu na pauta exportadora brasileira entre 2000 e os 12 meses encerrados em setembro do ano passado. Em 2000, 22% das vendas externas do setor foram de produtos com alto índice de tecnologia. Nos 12 meses encerrados em setembro, a participação destes bens recuou para 15%, em contrapartida ao aumento da fatia dos produtos de baixa e média intensidade tecnológica, como laminados, locomotivas, automóveis e plásticos.

¿ O Brasil aumentou o seu volume de exportação em todos os setores, mas as commodities e produtos de média intensidade tecnológica, como automóveis e máquinas, se beneficiaram mais. Os produtos de alta intensidade não conseguiram acompanhar o mesmo ritmo ¿ atesta Cristiano Prado, assessor adjunto de Pesquisas Econômicas da Firjan.

Prado encontra ainda outras explicações para a redução da fatia dos produtos tecnologicamente mais elaborados. Segundo ele, o país precisa de uma política mais clara de incentivos para instalação de empresas que produzem este tipo de bens, desburocratizando a questão tributária.

¿ É mais interessante para o país exportar produtos de alta tecnologia ¿ resume Prado.

José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), faz coro com Prado e lembra que commodities e produtos de baixa intensidade tecnológica se beneficiaram do boom de preços no mercado internacional a partir de 2002. Para ele, o Brasil deveria seguir o exemplo da Coréia do Sul, ¿que não possui insumo algum e tem uma pauta de exportações dinâmica, protegida contra oscilação de preços¿.

¿ Precisamos de uma política integrada de comércio exterior. Hoje, temos políticas isoladas. Os produtos tecnologicamente mais elaborados têm seus preços definidos pelos produtores, enquanto as commodities dependem do comprador.

Para ele, seria importante desenvolver tecnologias próprias no Brasil.

¿ Assim, aproveitaríamos períodos de preços maiores, até as tecnologias caírem no uso comum. Hoje, nossas maiores vendas de manufaturados são de multinacionais que usam o Brasil como plataforma montadora, ou de setores pouco elaborados, como calçados e vestuário ¿ ressalta.

O comportamento da indústria fluminense é semelhante à média do setor no país. A fatia do setor de baixa intensidade tecnológica na pauta de exportações do estado pulou de 32% para 53%, enquanto as vendas de produtos de média intensidade avançaram de 13% para 16% na comparação entre 2000 e os 12 meses terminados em setembro de 2005.

No sentido inverso, a fatia das vendas de bens de alta intensidade tecnológica caiu de 21% para 7%. Mas os números são influenciados pela exportação contábil de US$ 1,2 bi em navios-plataformas, que na verdade ficaram no país e são utilizados pela Petrobras.

Expurgando esta negociação, os produtos de baixa intensidade passam a ter fatia de 35% na pauta de exportações do estado, ainda assim superior aos 22% de produtos de média intensidade e aos 10% dos bens de alta intensidade.