Título: Moscou revive Guerra Fria
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 24/01/2006, Internacional, p. A7

MOSCOU - Depois de acusar, no fim do ano passado, os Estados Unidos de estarem espionando através de ONGs locais, chegou a vez de a Rússia delatar a Grã-Bretanha pelo mesmo crime. O serviço secreto de Moscou, a antiga KGB, denunciou ontem que quatro diplomatas britânicos estavam usando equipamentos eletrônicos dentro de uma pedra falsa para coletar Inteligência e os acusou de desviar dinheiro para ONGs, inclusive para uma das mais notórias organizações de vigilância de direitos humanos no país, o Moscow Helsinki Group.

De acordo com o porta-voz do Serviço Secreto, Sergei Ignatchenko, a situação será resolvida ''num nível político''. No entanto, não confirmou os rumores de que os diplomatas serão expulsos da Rússia.

Autoridades da chancelaria britânica tanto em Londres quanto em Moscou também se recusaram a comentar o assunto. O primeiro-ministro Tony Blair chegou a ser abordado por repórteres, mas se esquivou ao contar que apenas tinha tomado conhecimento da questão.

No domingo, a televisão estatal russa divulgou um vídeo mostrando quatro funcionários da embaixada da Grã-Bretanha supostamente usando equipamentos eletrônicos instalados dentro de uma pedra falsa em uma praça de Moscou. A intenção, afirma, era consegui informações de agentes russos.

Entre os diplomatas citados pela Rossiya, estão Marc Doe e Paul Crompton - ambos do setor político da embaixada. Também mostra cópias de documentos que comprovariam que Londres transferiu dinheiro para ONGs na Rússia, violando uma lei outorgada pelo presidente Vladimir Putin. A matéria cita Doe como o principal contato para as ONGs.

- É a primeira vez que literalmente os pegamos no processo de contactar seus agentes aqui e que conseguimos a prova de que estão financiando as organizações - afirma Ignatchenko.

Depois da Guerra Fria, a única vez em que Moscou acusou Londres de espionagem foi em 1996. Quatro diplomatas foram expulsos. A imputação de ontem, além de causar desconforto na chancelaria, reflete o endurecimento da atitude da Rússia em relação às ONGs, às quais impôs uma severa restrição de financiamento e atividades.

Desde os levantes anti-Rússia na Georgia, Ucrânia e Quirguistão, nos últimos anos, Moscou adotou uma postura de extrema desconfiança em relação aos grupos que promovem os direitos humanos e a democracia nas ex-repúblicas soviéticas. O Kremlin acusa nações ocidentais de encorajar mudanças de regime nestes países ao financiar as ONGs.

Logo depois da transmissão da Rossiya, a chancelaria britânica divulgou um comunicado limitando-se a afirmar que não tem ''ligações impróprias'' com as organizações humanitárias:

''Toda nossa assistência às ONGs é dada abertamente e visa ao apoio ao desenvolvimento de uma saudável sociedade civil na Rússia''.

Segundo a TV russa, só o Moscow Helsinki Group, que tem sido uma crítica persistente à política de Putin para as ex-repúblicas soviéticas, recebeu pelo menos US$ 41 mil em outubro. Mas a diretora do grupo, Lyudmila Alexeyeva - que foi uma dissidente soviética -, sustenta que o documento mostrado em rede nacional é fabricado e que desde 2004 não recebe financiamento britânico. E acusa as autoridades russas de estarem procurando um pretexto para lançar uma campanha de esmagamento das ONGs.

- Estão preparando a opinião pública, para que não reclamem quando o governo vier para cima da gente. O Kremlin pode nos destruir, está na nova lei - acusa. - Mas isso não vai cessar nossas atividades. Mesmo durante a União Soviética eu consegui trabalhar aqui dentro, várias vezes.

Para o editor da revista russa Negócios Globais, Fyodor Lukyanov, o ''escândalo da espionagem'' também será prejudicial para Moscou, que ocupa a presidência rotativa do G-8, o grupo das sete nações mais ricas do mundo mais a Rússia.

- Só vai piorar a imagem já ruim que os russos conquistaram, logo no início da presidência - afirma, lembrando do corte de gás natural para a Ucrânia, no começo do mês, que provocou racionamento em alguns países da Europa.