Título: Legista aponta tortura em Celso Daniel
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Fonte: Jornal do Brasil, 25/01/2006, País, p. A5
Médico mostrou 15 fotos do ex-prefeito assassinado e comoveu senadores. Opinião contradiz tese petista de crime comum
BRASÍLIA - O médico-legista Paulo Vasques reafirmou ontem na CPI dos Bingos que o prefeito petista de Santo André (SP) Celso Daniel, assassinado a tiros em janeiro de 2002, foi torturado antes da morte. Ele também disse que tratou-se de ¿crime de mando¿, encomendado. A tese é refutada pela polícia e pelo PT, partido do ex-prefeito. Para embasar a conclusão, Vasques projetou na parede da sala da CPI dos Bingos no Senado 15 fotos do corpo do prefeito. As imagens comoveram integrantes da comissão.
Vasques mantém a tese de tortura a exemplo de seu colega legista Carlos Delmonte Printes, morto em outubro, antes de depor à CPI. Ao contrário de Printes, Vasques não fez a necropsia do corpo. Esteve presente apenas no início. Assinou o laudo depois de terminado o trabalho.
O legista apresentou à CPI o laudo sobre a morte de Delmonte, afastando a possibilidade de suicídio e assassinato. Essa última hipótese, voltada para a queima de arquivo, era uma suspeita da CPI. Segundo Vasques, seu colega morreu de asfixia provocada por catarro, embora tivesse deixado bilhetes com intenção de se matar. Medicamentos tomados por Delmonte teriam evitado que ele tossisse, levando ao sufocamento.
As fotos do corpo de Daniel provocaram reação entre os senadores.
¿ Vendo essas fotos eu me sinto tão idiota de ter lido que não houve tortura ¿ disse o senador Wellington Salgado (PMDB-MG), que deixou a sala alegando estar comovido. O líder do PFL no Senado, Agripino Maia (PFL-RN), também afirmou estar chocado com as fotos, mas continuou na sessão. O senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) pediu que fossem projetadas novamente as fotos. Depois perguntou ao senador Eduardo Suplicy (PT-SP) se ele achava que Daniel fora torturado. Suplicy respondeu que sim.
Para a polícia, Celso Daniel não foi torturado, mas vítima de seqüestro comum seguido de morte. Essa também é a versão defendida pela maioria no PT.
O Ministério Público de São Paulo e a CPI suspeitam de que Daniel foi morto por contrariar esquema de corrupção de caixa dois do PT na prefeitura. Ele teria sido torturado para revelar o que sabia. O mandante seria o empresário Sérgio Gomes da Silva. Ele, no entanto, nega.
A tortura indica crime encomendado, o que levou Vasques a descartar seqüestro relâmpago ou comum e latrocínio.
Ainda segundo o legista, o primeiro laudo de Delmonte, assinado em 23 fevereiro de 2002, apontava que Daniel tinha sido torturado.
¿ Foi uma falha ele não ter escrito a palavra tortura (no laudo) ¿ afirmou Vasques, informando que a referência só seria feita nos anexos.
No depoimento seguinte, os delegados Edson Santi, do Departamento Estadual de Investigações Criminais de São Paulo (Deic) e José Luna, da Polícia Federal, afirmaram que, até onde investigaram o caso, o crime foi comum, cometido por uma quadrilha de seqüestradores. Eles não falaram em tortura.