Título: Diretor do Rural dá nova versão a empréstimo do PT
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Fonte: Jornal do Brasil, 19/01/2006, País, p. A4
Em depoimento à CPI dos Correios, o vice-presidente do Banco Rural, José Roberto Salgado, explicou ontem que o empréstimo de R$ 3 milhões dado ao PT em maio de 2003 tinha como garantia adicional o compromisso de que as doações de filiados feitas ao partido seriam usadas para pagar o empréstimo.
Ele levou à comissão uma correspondência interna que cita a inclusão dessa doação partidária como garantia, enviada pela agência de São Paulo que concedeu o empréstimo à área jurídica do banco, em 12 de agosto de 2003.
Em relação à renovação do empréstimo, Salgado trouxe à CPI nota feita de próprio punho pelo ex-vice-presidente do Banco Rural José Augusto Dumont, que morreu em 2004. Na nota, Dumont dizia que as garantias adicionais estavam sendo confirmadas, o que resultou na aprovação da renovação do empréstimo.
Ao questionar Salgado sobre a garantia dada pelo PT, o deputado Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) disse que nenhuma instituição bancária concederia um empréstimo baseado na possibilidade de doações futuras. O parlamentar perguntou qual foi a avaliação de risco feita pelo banco.
Salgado ressaltou que o partido havia acabado de ganhar as eleições para presidente; era, à época, o maior do país; e assumira o poder. Em uma análise de risco de empréstimo, o PT, em sua opinião, tinha todas as condições de honrar seus compromissos.
Pannunzio criticou a avaliação do banco.
- O Banco Rural jogou com negociatas que viriam com o novo governo, e não com garantias bancárias - afirmou.
O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) questionou Salgado sobre as garantias dos empréstimos do Rural às empresas de Marcos Valério Fernandes de Souza. Dias destacou que essas garantias eram contratos com estatais, os quais continham cláusulas proibindo sua utilização com esse fim.
Salgado respondeu que esses contratos não são exatamente garantias, mas sim comprovações de que as empresas estavam em crescimento com a agregação desses contratos à sua carteira de pagamentos, o que elevava a expectativa de que os empréstimos pudessem ser liquidados futuramente.
O vice-presidente do Banco Rural classificou como mentirosas as declarações do ex-superintendente do banco Carlos Godinho de que os empréstimos às empresas de Marcos Valério foram feitos para não serem pagos. Ele afirmou que realizou reuniões com Valério para cobrar as dívidas.
Salgado ressaltou que Godinho era responsável pela área de compliance (que fiscaliza o cumprimento de regras pela instituição) e não tinha qualquer contato com a área de crédito. A função de Godinho, segundo ele, era averiguar a conformidade das operações do banco com as normas do Banco Central.
Salgado atribui as facilidades de Valério para conseguir empréstimos no Rural à amizade com José Augusto Dumont. O vice-presidente do banco disse ainda que era amigo íntimo de Dumont e que ele jamais contrataria um empréstimo para não receber.