Título: Moderado ganha força de líder
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Fonte: Jornal do Brasil, 25/01/2006, Internacional, p. A7

Fatah e Hamas devem ser os vitoriosos no pleito legislativo de hoje, mas chefe de governo pode ser menos radical

RAMALA, Cisjordânia - Na véspera das eleições legislativas palestinas de hoje, ganhou força a hipótese de um governo de coalizão Fatah-Hamas mas liderado, no entanto, por um ''terceiro homem'', um político independente e bem-visto pela comunidade internacional. Segundo a imprensa do Oriente Médio, esta pessoa de ''personalidade impecável'' seria Salam Fayyad, ex-ministro das Finanças da Autoridade Nacional Palestina (ANP).

O político lidera a lista de centro-direita Terceira Via, pequeno grupo de personalidades independentes e concorrentes no pleito que vai renovar os 132 assentos do Parlamento - o primeiro desde 1996. Cerca de 1,5 milhão de palestinos estão aptos a ir às urnas.

Ontem, Mushir al Masri, um candidato do Hamas no Norte de Gaza, disse que o grupo espera se tornar o maior partido na Casa, mas que não vai tentar governar sozinho.

- Estamos procurando parcerias com a Fatah e com outros partidos - confirmou.

A última pesquisa, divulgada na segunda-feira pelo Centro Palestino de Opinião Pública, previa que o movimento governista Fatah conquistará 39,6% dos votos e o grupo extremista islâmico Hamas ficará com 28,8%. Ou seja, nenhum dos dois terá a maioria no Parlamento, o que abre precedente para a escolha de um terceiro líder. Outro indício dessa hipótese é que autoridades do Hamas se reuniram com o presidente palestino, Mahmoud Abbas, para discutir o que farão após as eleições. No entanto, as resoluções ainda não vieram a público.

Para os palestinos, o feito mais marcante de Fayyad foi ter lutado contra a corrupção na ANP, onde reestruturou a política de pagamento de salários. Demitiu-se quando a liderança aumentou o soldo para pacificar as forças de segurança. Também é um conhecido economista e ex-funcionário do Fundo Monetário Internacional (FMI). Por isso, os Estados Unidos, a União Européia (UE) e o Egito vêem nele uma pessoa idônea para reformar as instituições do governo.

Aparentemente, a escolha também deve agradar Israel, que já deixou bem claro que não vai aceitar que o número 1 na lista do Fatah, Marwan Barghouthi, assuma a chefia ou qualquer outro cargo do governo palestino. Barghouthi está preso desde 2002 em um centro de reclusão israelense, onde cumpre cinco prisões perpétuas por assassinato de israelenses.

- Barghouthi não será ministro na prisão - assegurou o ministro de Segurança Interior de Israel, Gideon Ezra, em entrevista ao jornal Jerusalem Post. - E não temos intenção de soltá-lo.

Além disso, é ainda menos provável que Jerusalém aceite que Ismail Haniye, número 1 do Hamas, seja primeiro-ministro caso o grupo vença as eleições. Um dos principais projetos de governo do movimento é a destruição do Estado sionista.

O ex-ministro de Assuntos Exteriores israelense Shimon Peres insinuou ontem, com certa ironia, que dificilmente um governo palestino liderado pelo Hamas poderá assumir as contas da ANP e a folha de pagamento dos funcionários, já que não teria a ajuda da comunidade internacional.

O Hamas está na lista de organizações terroristas da UE, da ONU e do Departamento de Estado americano, razão pela qual os contatos com o movimento estão paralisados, pelo menos por enquanto.

- O que o Hamas fará se, teoricamente, ganhar as eleições? Eu não acredito nisso - disse Peres, insinuando que o embargo de financiamento é outro motivo pelo qual o Hamas teria desistido de impor um chefe de governo próprio.

Peres também lembrou da política de violência do movimento radical.

- Quem vai sentar para negociar com pessoas que carregam bombas nas mãos? - indagou, referindo-se às ameaças dos EUA e da UE de interromperem as transferências de dinheiro à ANP.

A ANP depende da ajuda financeira internacional para pagar os salários dos funcionários, dos policiais, da cúpula política e dos parlamentares.