Título: Lula aumenta assédio ao PMDB
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 19/01/2006, País, p. A5

O prato principal será carne de sol, a pedido do mais ilustre convidado adepto da dieta da proteína. Mas numa reação ao movimento pela candidatura própria do PMDB à Presidência, o atual ocupante do cargo, Luiz Inácio Lula da Silva, pretende é adoçar a boca do partido em jantar hoje na casa do senador e líder do partido no Senado, Ney Suassuna (PB). Para fechar uma aliança mesmo que branca com o partido para as eleições presidenciais, Lula está disposto a ceder mais ministérios ¿ a partir da desincompatibilização dos ministros candidatos no fim de março ¿ e até trabalhar para que o PT apóie candidaturas peemedebistas a governador em pelo menos cinco estados.

Hoje o partido controla as pastas da Saúde, das Minas e Energia e Comunicações, além de cargos importantes no segundo escalão, como a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e Transpetro, mas sonha com o Ministério dos Transportes. A pasta, considerada a galinha dos ovos de ouro da Esplanada por possuir o maior orçamento para esse ano, poderá entrar na negociação. Incluindo os restos a pagar de 2005, o ministério terá mais de R$ 6 bilhões para investir.

Os cinco estados onde o PT poderá apoiar o PMDB em troca do apoio do partido à reeleição de Lula são Alagoas, Amazonas, Espírito Santo, Paraíba e Goiás. O presidente sabe dos obstáculos para a celebração de uma aliança formal com todo PMDB. Por isso, se contentaria em ver em seu palanque apenas a chamada ala governista do partido historicamente fragmentado. Na avaliação de interlocutores do presidente, o caminho pode ser facilitado com a manutenção da verticalização.

Mantida a regra que obriga as alianças nos estados a observar a lógica nacional, a candidatura própria do PMDB poderá se transformar num inconveniente para as pretensões eleitorais de alguns caciques do partido interessados em ficar livres durante a montagem dos palanques regionais. Segundo um interlocutor habitual de Lula, com a manutenção da verticalização o Planalto conta com a pressão dos governadores do PMDB para enterrar a tese da candidatura própria.

Em Santa Catarina, por exemplo, o governador Luiz Henrique (PMDB) é apoiado pelo PSDB. Em Pernambuco, Jarbas Vasconcelos (PMDB) montará um portentoso palaque com a participação do PFL e PSDB. No Paraná, o governador Roberto Requião (PMDB) conta com o apoio do PT.

¿ Tem um segmento (do PMDB) que se identifica totalmente como base do governo e torce, como nós do governo, para que estejamos juntos nessa caminhada de 2006 ¿ afirmou ontem o ministro da Coordenação Política Jaques Wagner que também estará presente ao jantar na residência de Suassuna. O convescote, inicialmente marcado para ontem, foi adiado para acomodar um encontro de Lula com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez.

Apesar do esmero, Lula não terá vida fácil se quiser atrair o PMDB mesmo para uma aliança informal. Ontem, o partido deu mais um passo em direção à candidatura própria. Diante de um plenário da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara lotado, o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, formalizou sua inscrição para as prévias do PMDB e conclamou a militância para uma mobilização partidária pela candidatura à presidência.

Durante o evento, Rigotto anunciou que pretende se afastar do governo gaúcho nos próximos dias para trabalhar seu nome junto a militância do partido. As prévias estão marcadas para 5 de março mas devem ser adiadas para o dia 19 em reunião da Executiva Nacional.

¿ Vamos (o PMDB) ser a novidade desta eleição. Temos condições de, na condição de terceira via, chegar ao 2o turno e vencer as eleições ¿ bradou Rigotto em discurso precedido do coro ¿Brasil pra frente, Rigotto presidente¿, entoado por uma claque capitaneada pela juventude do PMDB.

As prévias serão decididas por um colégio de 15 mil eleitores, formado pelos delegados regionais e nacionais do PMDB e todos os membros do partido que exercem mandatos.