Título: A mentira como gazua
Autor: Milton Temer
Fonte: Jornal do Brasil, 24/01/2006, Outras Opiniões, p. A11

Atentem para este episódio registrado por Tarcisio Holanda no livro editado pela Câmara dos Deputados, O Congresso em meio século, com a transcrição das memórias do seu burocrata-mor e assessor principal de uma série de presidentes da Casa, Paulo Affonso Martins de Oliveira. Tratava-se da votação da Emenda 9, pela qual Castello Branco traía o compromisso firmado com o PSD, após o golpe de 64. E prorrogava seu mandato por um ano, suprimindo a eleição direta prevista para 65, para a qual já estavam postas as candidaturas de JK e Lacerda. Paulo Affonso auxiliava na chamada nominal da votação, cujo quorum deixou de ser alcançado por um único voto, o que obrigaria o arquivamento da proposta, no conseqüente encerramento da sessão então conduzida por Auro de Moura Andrade. Que a encerrou.

Aí, abre-se o espaço para a torpeza. Daniel Kruger vai buscar um deputado inexpressivo que entra no plenário, clamando pela reabertura da sessão. Estaria no banheiro, onde tinha ido avisar antecipadamente Paulo Affonso. Auro pede confirmação. Paulo Affonso sabia tratar-se de mentira. Mas alega ter ouvido uma voz, com a sugestão marota: ''confirma, ou o Congresso será fechado''. Confirmou o blefe, e deu cobertura à vilania de Auro na reabertura da sessão que ''legalizou'' a primeira escalada de um dos mais cruéis períodos autoritários de nossa história.

Recuperar este momento trágico vale para duas assertivas. A primeira: louvar Tarcisio Holanda, como repórter-entrevistador de alta qualidade. A segunda: dizer que mudamos quase nada do período autoritário aos dias atuais.

No governo democrático conduzido por um ex-líder sindical combativo, transformado em homem de confiança do capital financeiro multinacional e de seus parceiros locais, o compromisso com a verdade continua não sendo o paradigma de comportamento. Está aí o hóspede privilegiado do Planalto a desmentir, ostensiva e diariamente, sua falaciosa afirmação de incerteza quanto a candidatar-se à reeleição. Até esqueleto de obra inacabada de hospital vale como mote para discurso em ambiente de claque favorável, como no ato eleitoreiro de sábado, na Baixada Fluminense.

Estão aí, se sobrepondo uns aos outros, os indícios de comprometimento do presidente da República em toda a lambança em que o seu governo e seu partido se viram mergulhados a partir do rompimento do pacto de aliança com Roberto Jefferson. E o que se ouve da parte do presidente, cuja relação histórica de comando rigoroso sobre os quadros dirigentes do partido é incontestável? Nunca soube de nada. Foi traído por desinformação. Sem tremer um músculo da face, como se qualquer porta da sede do partido não soubesse de seu absoluto controle sobre tudo o que se passava.

Estão aí se sobrepondo os balanços econômicos, como evidências chocantes de quem são os atuais aliados de fé do governo Lula e do PT. Pode ser que setores do capital industrial, atolado nos juros mais altos do mundo, façam restrições. Mas perguntem que opinião têm os Setúbal e demais grandes banqueiros sobre o presidente com ''cara de povo''? Perguntem quem eles preferem ver vitorioso em outubro; se Lula ou se Serra. E nem é necessário colocar a senadora Heloisa Helena na comparação, porque aí vira provocação. É Lula, e o ''neolulismo'', que eles não cessam de festejar.

E não seria para menos. Basta fazer uma análise dos últimos dados da Receita. Dos R$ 364 bilhões da arrecadação-recorde de 2005, as fontes mais pródigas são o imposto de Renda e a Cofins (Financiamento da Seguridade Social). Mas é preciso recorrer a microscópio para conhecer a dimensão do Imposto sobre Operações Financeiras, tal a sua insignificância percentual, comprovando que paga quem trabalha para que haja pródiga isenção aos que especulam, mas dão aval de ''bom comportamento''. Aliás, no alto índice de recolhimento da Cofins, uma outra mentira fica exposta: a do ''déficit'' da Previdência. São R$ 87 bilhões, surrupiados aos aposentados, ao ''povo pobre'', para serem acrescentados ao inaceitável superávit, com o qual, por conta de sua destinação exclusiva ao pagamento de juros da dívida, os banqueiros não cessam de encher as burras particulares.

Que a campanha eleitoral venha logo. É o tempo ideal para a denúncia das mentiras, e a apresentação das alternativas - todas, palavras femininas, repararam? - que o povo aguarda ansioso na próxima eleição presidencial.