Título: Polêmica no cinema
Autor: Jorge Furtado
Fonte: Jornal do Brasil, 24/01/2006, Outras Opiniões, p. A11

Já ficou claro para todos que a resposta do assessor do Ministério da Cultura Sérgio Sá Leitão à entrevista de Ferreira Gullar foi um despautério e uma grosseria. Li a réplica do poeta, irretocável. Caetano Veloso, grande artista e meu amigo, também estava coberto de razão em sua defesa de Gullar. Mas o texto de Caetano, um desabafo justo, não trazia, ao meu ver, sugestões sobre maneiras melhores do que as já existentes para conceder verbas públicas para a realização de filmes. (O texto do Caetano era muito bom, ao contrário do texto do governo, péssimo. ''Stalinista''? Cruzes...) Não temos Bergmans em atividade no país, infelizmente. Nossos melhores cineastas, Nelson Pereira dos Santos, Hector Babenco, Eduardo Coutinho, Cacá Diegues, Domingos de Oliveira, estão filmando ou preparando filmes. (Guel Arraes, Fernando Meirelles e Walter Salles não inscreveram projetos seus nos últimos concursos). Há estreantes cujos trabalhos são aguardados com grandes expectativas, como Matheus Nachtergale, Ana Luiza Azevedo e Gustavo Spolidoro, entre tantos. Há muitos cineastas que já fizeram alguns bons filmes preparando os próximos: João Falcão, Beto Brant, Laís Bodanzky, Tata Amaral, Carla Camurati, Lírio Ferreira, Marcos Bernstein, José Padilha... Há filmes cariocas e paulistas (a maioria, claro) mas há filmes produzidos na Bahia, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, Brasília. O que está errado? Se o Estado tem obrigação de financiar a produção cultural, e acho que tem, a maneira mais democrática de fazê-lo é por meio de concursos públicos, com regulamentos claros. Alguns critérios de seleção dos projetos podem ser objetivos: o histórico da produtora e da equipe de realização, o desempenho de bilheteria dos últimos filmes do realizador (considerando-se a média de público por cópias de lançamento e a relação entre o custo do filme e seu retorno de bilheteria), etc. Mas todos estes dados - que são públicos e disponíveis na Internet - dizem respeito a filmes já realizados. Os critérios de análise de um filme que só existe no papel serão sempre subjetivos e, neste caso, um júri de seleção é inevitável.

A subjetividade, e cada júri tema sua, começa por imaginar, a partir de um roteiro e de um projeto, a qualidade artística do futuro filme, aquilo que os concursos costumam chamar de ''relevância cultural''. Ela também pode ser suposta levando em conta o currículo do realizador, os filmes que já fez, seus prêmios em festivais (não esquecendo que há três festivais por dia) e a opinião da crítica (não esquecendo que todos os filmes recebem críticas boas e ruins, às pencas). A descentralização na concessão de verbas deve ser um critério? Acho que sim. Rio e São Paulo serão ainda por muito tempo os maiores produtores, de tudo, não só de cinema, mas as verbas federais devem contemplar o país como um todo, sem extremos ridículos. Deve haver uma preocupação com a relação entre custo do filme e seu ''potencial de público''? Acho que sim, mesmo conhecendo a grande lista de filmes que contrariaram estas expectativas, negativa e positivamente. Filmes com mais de um milhão de espectadores são importantes para o mercado e filmes que, lançados, venderam menos de 10 mil ingressos, têm alguma coisa de errado. Mas a bilheteria ou o potencial de bilheteria não pode ser o único critério. (Nelson Freire, de João Moreira Salles, na minha opinião o melhor filme brasileiro dos últimos anos, fez algo em torno de 100 mil espectadores. Merecia mais, mas é muito para um documentário sobre um pianista clássico.) Devem ser apoiados cineastas consagrados ou estreantes? Ambos, eu acho. Em que proporção? Na proporção justa, segundo o júri. (A França produz cerca de 150 filmes por ano e mais da metade deles é de estreantes, um exagero que talvez explique a má qualidade do atual cinema francês.)

Quais seriam outros critérios? Alguma sugestão? É bom lembrar que as verbas dos concursos não são o único dinheiro público financiando cinema no Brasil. O dinheiro do artigo terceiro (da lei do Audiovisual, que mantém aqui, aplicado na produção de filmes, parte dos lucros das distribuidoras estrangeiras), assim como as muitas leis federais, estaduais e municipais de isenção de impostos para investimentos de empresas em projetos culturais, também são dinheiro público. Os critérios de investimentos destas verbas ''do mercado'' são tão subjetivos quanto quaisquer outros mas não é de se esperar que sejam idênticos aos critérios ''do governo''. Não são e não devem ser.

Acabo de saber dos filmes que serão apoiados pelo BNDES e fiquei feliz com meus companheiros de lista. Com qualquer critério, objetivo ou subjetivo, a lista me parece boa. Bons projetos ficaram de fora? Muitos, tenho certeza. A verba para a cultura é curta, curtíssima. Para se ter uma idéia, li estes dias que os desvios de verbas públicas acumulados nos governos FHC e Lula pode passar de R$ 2 dois bilhões. A conta não inclui os US$ 44 bilhões (atenção revisor, é isso mesmo, bilhões, com ''b'' de bola) que o governo FHC torrou das reservas brasileiras para manter o real valendo um dólar até o dia de sua reeleição. Sabe quantos filmes brasileiros podiam ter sido feitos com este dinheiro? Todos, de O Óculos do Vovô (Francisco Santos, Pelotas, 1913) a Antônia (Tata Amaral, São Paulo, 2006).

Li a lista do BNDES e espero bons filmes. Pela parte que me toca, vou fazer o melhor possível.