Título: Mudança de Rumo
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 19/11/2004, Opinião, p. A-10

Sem surpresa, a queda-de-braço entre a equipe da Fazenda e o (ex) presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) terminou de forma lamentável, mas já esperada: Carlos Lessa foi vencido por um eufemismo. O governo, ao colocar à frente do banco o (ex) ministro do Planejamento, Guido Mantega, adota uma expressão moderada para se referir à mudança: quer dar ao órgão uma direção mais técnica e menos política.

Pena que tenha sido assim. Carlos Lessa, nacionalista e desenvolvimentista, dispunha de cabedal técnico e acadêmico que o habilitava singularmente para o cargo. Orientava-se por uma visão estratégica de Brasil. Para ele, o BNDES não podia ser utilizado como ''balcão de curto prazo'' ou um ''banco de socorro''. Como afirma um texto de apoio à sua permanência, divulgado ontem, ''a direção atual do BNDES recolocou-o na direção de um banco do desenvolvimento e da promoção social''. Lembra que, com Lessa à frente, a instituição ''soube rapidamente ser o instrumento de apoio à recuperação de setores da indústria brasileira em ruínas, como a naval, entre outras, assim como o apoio à extensão das exportações brasileiras, com especial atenção aos créditos aos países latino-americanos, de forma conjugada com a nova política de relações exteriores do Brasil''.

Até o desfecho da demissão, era possível acreditar que o conflito monetaristas versus desenvolvimentistas era capítulo limitado ao governo Fernando Henrique Cardoso. Com sua saída da presidência do banco, o desenvolvimentismo perde outro embate.

No governo, Lessa era encarado como polemista. Não levava desaforo para casa. Recentemente, ao se referir ao presidente do Banco Central, declarou-se absolutamente convencido de que Henrique Meirelles fazia ''parte de uma articulação para desmontar o BNDES''. O desabafo era uma resposta ao presidente do Banco Central que, para uma platéia de empresários, considerou que os créditos direcionados, como os do BNDES, alinham-se entre as principais causas do alto custo do dinheiro no Brasil.

Apesar do humor irônico, Lessa conquistou o respeito de amplos setores da sociedade. Era reconhecido com um dos poucos quadros de que o país dispõe, no governo e no mundo acadêmico, para superar o apagão de infra-estrutura, um dos obstáculos ao desenvolvimento. Além de confirmar a pequena diferença entre as políticas econômicas de Lula e FHC, sua saída do BNDES sublinha a força do Comitê de Política Monetária, que amarra o desenvolvimento com a alta dos juros.

Com Guido Mantega, sai a visão estratégica de Lessa e passa a dominar a direção do banco a doutrina dos controles inflacionários. A desgastada retórica da contenção de alta de preços, tão criticada pelo Partido dos Trabalhadores quando foi lançado o Plano Real, parece orientar a bússola econômica do governo. O temor anacrônico de uma subida sustentada da inflação prevalece sobre o sonho do crescimento econômico. O ex-ministro do Planejamento, com fama de contemporizador, é quadro de confiança de Antonio Palocci, e sua escolha representa um feixe a mais de poderes nas mãos do ministro da Fazenda.

É inegável que há mais que temperamento forte na raiz dos problemas que levaram à substituição de Lessa. A troca pode ser vista como parte da redefinição política já iniciada. É a terceira movimentação no tabuleiro governamental, iniciada com a substituição do ex-ministro da Defesa, José Viegas, pelo vice-presidente da República, José Alencar, e aprofundada com a saída de Cássio Casseb da presidência do Banco do Brasil. Para o Rio de Janeiro, a saída de Lessa do BNDES é motivo a mais para desalento. O Estado perde o último remanescente no primeiro escalão federal, depois das saídas de Miro Teixeira e Benedita da Silva.

O presidente Lula e seus formuladores de políticas terão de redirecionar alguns dos vetores econômicos, se não quiserem acabar vítimas de uma de suas palavras de ordem. Exatamente a mesma que os levou à vitória em 2002: também em termos de política econômica, o medo não pode vencer a esperança. E, lamentavelmente, com a saída de Carlos Lessa da presidência do BNDES, o governo dá indícios de que tem tido medo de ser feliz.