Título: Empresários criticam aperto fiscal
Autor: Mariana Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 01/02/2006, Economia & Negócios, p. A19

Meta de economia para pagar juros sacrifica investimentos e impede crescimento maior do país Se o aperto fiscal recorde - o equivalente a 4,84% das riquezas produzidas no país no ano passado - soa como música aos ouvidos de investidores, que vêem a dívida do governo sob controle, para o setor produtivo, a marca denuncia o descaso com o crescimento econômico, a geração de empregos e os investimentos em infra-estrutura. - Boa parte do superávit primário obtido pelo governo vem do aumento da receita com impostos, altos demais. O que o governo deveria fazer era cortar as suas despesas para possibilitar que se arrecade menos e se invista mais - avalia o diretor do departamento de tecnologia e competitividade da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), José Ricardo Roriz.

Segundo ele, as taxas de juros praticadas no país tornam o ambiente adverso para o setor produtivo.

- O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) não conseguiu liberar todo o dinheiro que tinha em caixa, os investimentos estrangeiros produtivos caíram. Em todo lugar do mundo, os governos criam condições para a produção. No Brasil, trabalha-se em um ambiente hostil - diz. - O que faz o Brasil crescer é o setor produtivo, não o mercado financeiro.

O BNDES tinha como meta emprestar R$ 50 bilhões em 2005. Ficou nos R$ 47 bi, embora com crescimento de 18% frente aos desembolsos de 2004. Já o Investimento Direto Estrangeiro caiu 16,4% no ano passado, para US$ 15,2 bilhões.

O motivo é a alta taxa de juros - que afetou tanto as contas do governo quanto as das empresas que queriam investir. Em 2005, a Selic ficou 2,8 ponto percentual acima da média de 2004. Isso causou um aumento de 22,5% nas despesas do governo com o serviço da dívida, ao todo, R$ 157 bilhões em 2005. Com esse gasto, apesar da economia de R$ 93,5 bilhões, o setor público ficou deficitário em R$ 63,6 bilhões no ano passado (o equivalente a 3,3% do PIB).

Nas contas do economista Reinaldo Gonçalves, professor da UFRJ, se os recursos despendidos em juros fossem alocados em ampliação da capacidade produtiva, a taxa de investimento do país sairia dos atuais 15% para 23% do PIB, o que poderia, por sua vez, promover um crescimento de até 6,5% da economia.

- Estamos perdendo crescimento econômico, dezenas de bilhões de reais e milhões de empregos - critica.

A saída, segundo diz, seria cortar os juros reais a um terço do patamar atual, reduzindo também as despesas financeiras.

- A política monetária é suicida e produz esse crescimento medíocre da economia - alerta. - A inflação no Brasil não é de demanda, não é porque as pessoas estão comprando demais. É, sim, porque faltam investimentos, tanto do setor público quanto do privado - analisa.

Já para o diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Sérgio Gomes de Almeida, a maneira como o superávit primário de 4,84% do PIB foi alcançado também é motivo de críticas.

- Se olharmos o número, é positivo. Mas sabemos que o aperto foi obtido às custas de um aumento da carga tributária, sacrificando o lado real da economia.