Título: PERDA DE TEMPO
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Fonte: Jornal do Brasil, 08/02/2006, Opinião, p. 6
Atemperatura do ambiente político entrou em alta em meados do ano passado, quando lideranças petistas resolveram se contrapor às acusações da existência do valerioduto com a menção a uma fantasiosa conspiração das ¿elites¿ e da ¿direita¿. Por trás das malas repletas de dinheiro vivo despachadas pela dupla Delúbio Soares e Marcos Valério estaria uma intrincada conspiração golpista. Por inconsistente, a versão foi arquivada.
As provas concretas da existência do mensalão e de esquemas de ordenha do dinheiro público revogaram essa justificativa petista, e o clima desanuviou-se enquanto a idéia de um pedido de impeachment do presidente era deixada de lado.
Agora, é a antecipação do calendário eleitoral que trata de injetar adrenalina no cenário político. A decisão do presidente de fazer campanha sem assumir que faz, enquanto adia até junho, limite do prazo legal, o anúncio do lançamento do projeto da reeleição, acirra os ânimos oposicionistas. Mais ainda quando Lula demonstra recuperar espaços junto ao eleitorado.
Antes da entrevista publicada na última edição da revista ¿IstoÉ¿, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já aconselhava os tucanos a bater forte no governo. Na entrevista, FH deu um exemplo do que entendia por bater forte: ¿(...) a ética do PT é roubar.¿
O troco petista veio em ameaças de processo judicial, e pode não parar por aí. Eis o problema. Pois quando se está às portas de uma campanha eleitoral de rara importância, os dois partidos que dominam o jogo eleitoral ameaçam se engalfinhar numa luta em que não haverá qualquer espaço para se discutir com seriedade uma agenda de propostas para o país.
Se ambos os lados não entenderem a necessidade de haver debates produtivos na campanha, terá sido perdida uma oportunidade especial para a discussão de idéias. A questão da ética na política, por óbvio, é e precisa ser tema das eleições. Mas também há outros assuntos imprescindíveis.
Das contas públicas ¿ onde se destacam os gastos correntes em crescimento descontrolado e uma asfixiante carga tributária ¿ às políticas sociais ¿ fonte de despesas elevadas em ascensão e de qualidade duvidosa ¿ questões não faltam. Há muito o que tratar na campanha. Ela não pode ser desperdiçada em bate-bocas.