Título: Teerã desafia ONU em ação nuclear
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Fonte: Jornal do Brasil, 01/02/2006, Internacional, p. A8
Usina processa urânio e país será submetido ao Conselho de Segurança
VIENA - A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou ontem que o Irã começou os preparativos para realizar o enriquecimento de urânio, capaz de produzir combustível para bombas. No mesmo documento, a agência avalia que Teerã continua obstruindo uma investigação sobre os projetos atômicos do país. Em relatório confidencial, os técnicos da agência disseram que o Irã ainda não deflagrou o processo de enriquecimento, mas que já iniciou o trabalho de renovação na instalação em Natanz. A decisão foi anunciada pouco depois de o país ser informado que seu programa nuclear será levado à apreciação do Conselho de Segurança da ONU.
O Irã também impediu que inspetores da AIEA interrogassem cientistas ligados à obtenção de equipamentos que podem ter sido usados para produzir armas. Além disso, não deixou a AIEA copiar documentos ligados à produção de armas nucleares, afirmou o relatório.
A Casa Branca elogiou a decisão de enviar o dossiê nuclear iraniano ao Conselho de Segurança.
- Há um consenso na comunidade internacional sobre esta questão. O desenrolar dos debates de ontem representa uma decisão importante - declarou o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, referindo-se à unanimidade entre os cinco membros permanentes de envio do documento.
McClellan explicou que ainda era muito cedo para falar de sanções contra o Irã. Sublinhou que a decisão tomada na segunda-feira deixava a ''responsabilidade'' com a república islâmica. O consenso surpreendeu, pois os fortes interesses econômicos vinham impedindo que China e Rússia concordassem com a tomada de medidas mais enérgicas contra Teerã. Da mesma forma como europeus e americanos já vinham fazendo, agora também Pequim e Moscou apelaram a Teerã para que suspenda seu programa de enriquecimento de urânio.
Os Estados Unidos, a China, a França, o Reino Unido, a Rússia e a Alemanha foram ouvidos na noite de segunda para terça-feira em Londres sobre a possibilidade de enviar o dossiê nuclear do Irã ao Conselho de Segurança.
O documento tenta convencer Teerã a dar garantias de que não fabrica armas atômicas sob a fachada das atividades nucleares civis. O grupo quer que o país renuncie a todas as suas atividades de enriquecimento de urânio.
A diretoria da AIEA se reúne amanhã em Viena. Não há dúvida de que endossará a decisão.
- Esperamos que o Conselho [de Governadores, o executivo da AIEA]envie o caso ao Conselho de Segurança - disse McClellan.
A reação iraniana foi de desafio. Na capital, O presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, ameaçou não aplicar o ''protocolo adicional'' que autoriza a AIEA a realizar inspeções em seu país.
- Se o dossiê iraniano for enviado ao Conselho de Segurança da ONU, a República Islâmica do Irã, conforme lei votada pelo Parlamento, será obrigada a parar a aplicação voluntária do protocolo - declarou.
- Não renunciaremos a nosso direito de enriquecer urânio - acrescentou, em uma conversa com o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki. - Alguns poucos querem ter o monopólio sobre a energia nuclear e privar o resto do mundo dessa matriz.
Ainda de acordo com o presidente, se as potências os impedirem de dominar a energia atômica, poderão fazer o mesmo com outros.
- Na região, sustentam um regime ilegítimo que foi dotado de armas nucleares - completou, em alusão a Israel.
O envio para o Conselho de Segurança da ONU do dossiê nuclear iraniano significa o ''fim da diplomacia e isso não é nada positivo'', declarou Ali Larijani, o responsável iraniano para a questão nuclear, em entrevista à tevê estatal de seu país. Larijani salientou que o Irã vai recorrer a todas as vias pacíficas para estabelecer o direito à tecnologia nuclear no âmbito do Tratado de Não-Proliferação (TNP).