Título: Furlan solta críticas em Davos
Autor: Rosana Hessel
Fonte: Jornal do Brasil, 27/01/2006, Economia & Negócios, p. A20
DAVOS, Suíça - A falta de um plano de metas mais elaborado para atrair investimento externo é o que falta para melhorar a competitividade do Brasil no mercado global, uma vez que o país perde espaço para outros emergentes, como China e Índia, disse ontem o ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio do Brasil, Luiz Fernando Furlan. Segundo ele, um plano de ação - como o anunciado pela China durante o Fórum Econômico Mundial (WEF) - pode ajudar o país a retomar o crescimento elevado e aumentar o interesse de investidores externos.
- O que nós temos? Inflação e superávit primário. E não temos imposto metas de comércio exterior de longo prazo ou com relação à taxa de câmbio - disse ele.
O ministro destacou três prioridades que deveriam entrar na agenda do governo: infra-estrutura, câmbio e crescimento.
- Os países que sistematicamente adotam compromissos que são verificáveis para atrair investimento têm obtido sucesso - disse ele, fazendo menção novamente à China e à Índia. Assim como o Brasil, Furlan lembrou que o México, nos últimos anos, também perdeu a competitividade frente a países que há poucos anos eram menos atraentes.
As empresas exportadoras, lembrou o ministro, estão mais fortes por não estarem sujeitas ao mesmo regime (burocrático) interno.
- Mas quando houver uma demanda muito forte, elas vão esbarrar no mesmo gargalo dos demais setores: a logística - acrescentou.
Ele não falou abertamente, mas deixou transparecer que a política macroeconômica atual, focada em juros altos para segurar a inflação, e assim conter a demanda, é equivocada.
- Quem não garante que o aumento da demanda possa reduzir os preços uma vez que diminui os custos de produção? - disse.
O ministro aproveitou cada minuto de sua estada em Davos para fazer contato com empresários do setor de tecnologia em busca de alternativas de transformar o país em uma plataforma de exportação tecnológica. Além de Michael Dell, dono da maior fabricante de computadores pessoais do mundo que leva o mesmo sobrenome, o ministro teve reuniões com Craig Barrett, presidente do conselho da Intel, e Hector Ruiz, presidente mundial da AMD. Mas, por enquanto, não há nada concreto.
- Todos eles estão otimistas com o Brasil e felizes com o aumento das vendas de computadores - disse Furlan, referindo-se ao benefício conseguido com a MP do Bem de uma leve redução dos impostos federais para PCs.
Já o chanceler brasileiro, Celso Amorim, esteve reunido durante a tarde de ontem com o ministro de comércio indiano, Kamal Nath, e foi surpreendido no final da reunião com a presença do secretário europeu de comércio, Peter Mandelson, que ficou no canto observando. Amorim não detalhou o teor das negociações bilaterais com Nath.
- Davos não é o lugar adequado para uma negociação - disse o ministro brasileiro ontem, durante entrevista coletiva, acrescentando que o Fórum Econômico Mundial não é um local apropriado para conseguir avanços para a próxima reunião ministerial da Organização Mundial de Comercio (OMC) em 30 de abril.
Amorim reiterou que a União Européia precisa reduzir os subsídios para a agricultura.
- Não podemos oferecer mais sobre a agricultura - disse ele.