Título: O Império mostra as garras
Autor: Owen Mathews
Fonte: Jornal do Brasil, 29/01/2006, Internacional, p. A12
MOSCOU - Não é preciso consultar especialistas. Mensagens recentes da Rússia para o Ocidente e vizinhos próximos são claras. Primeiro foi a Guerra do Gás no Ano Novo, quando Moscou cortou o suprimento de gás para a Ucrânia em função de uma disputa pelo preço - e demonstrou ao mundo que estava pronto a usar a questão energética como arma. Em seguida, estudo do ministro da Defesa Serguei Ivanov, intitulado A Rússia deve ser forte , repleto de citações sobre arsenais nucleares e avisos de que a interferência externa não seriam tolerados no quintal do Kremlim. Por último, enquanto os vizinhos Bielorússia e Ucrânia se preparam para eleições em março, Moscou tenta assegurar que os antigos satélites retornem à sua órbita.
Claramente, depois de anos de fraqueza, a Rússia ressurgente está ganhando músculos.
- É um lugar diferente do que estávamos acostumados a ver há três ou quatro anos - diz Katinka Barysch, do Centro para a Reforma da Europa.
Tal análise é sustentada pela crença de que impulsionada pelos preços do barril de petróleo e por um aumento de 7% no orçamento do Estado, Moscou pode se dar ao luxo de mostrar força como nunca antes. A guerra do gás foi um tapa no anti-russo presidente ucraniano, Viktor Yuschenko, mas um sinal para a Europa: ''Não brinquem conosco''.
Sensível às novas nuances, a Europa começou a rever sua postura. Daí a enorme atenção sobre a primeira viagem da nova chanceler alemã, Angela Merkel, a Moscou. Ansiosa para desenhar uma linha entre seu predecessor, Gerhard Schröder e Putin, Angela tocou em pontos como Direitos Humanos e deixou claro seu desacordo com a guerra que na Chechênia. Mais ainda, abriu espaço na agenda para se encontrar com representantes de ONGs russas ameaçadas por uma lei repressiva. Para completar, afirmou várias vezes que desejava se reforçar os laços com os vizinhos na Europa Oriental, ponto delicado diante da proximidade entre Putin e Schröder.
Tudo isso foi feito no estilo suave da nova chanceler.
- Ela fez comentários muito gentis e amigáveis sobre a situação na Rússia - disse Putin.
Qual seria a razão? Como Schröder, Angela Merkel precisa assegurar o suprimento contínuo dos 30% do petróleo e do gás consumidos na Alemanha - sem mencionar a busca por garantir presença na crescente petroeconomia russa, importante mercado para grandes companhias como Siemens e a construtora Hochtief.
Além disso, a chanceler deixou claro aos assessores de que usassem os canais possíveis para prevenir qualquer crise de relacionamento com Moscou, incluindo recorrer ao relacionamento próximo entre o antecessor e o presidente russo.
O mesmo caminho foi determinado para a diplomacia a ser aplicada na crise com o Irã. Gostando ou não das atitudes de Moscou, Europa e EUA têm pouca escolha a não ser a de lidar com a Rússia se quiserem algum progresso na crescente crise sobre as ambições nucleares de Teerã. Porém, enquanto Moscou ainda está arredio em bancar o parceiro, por outro lado ainda não estendeu velas. No fim do ano passado, os russos ofereceram, sem sucesso, um acordo com os iranianos de modo a enriquecer urânio em usinas em solo russo. Escaldado, o país ainda reluta em apoiar a discussão do caso no âmbito do Conselho de Segurança Nacional. Ao mesmo tempo, a Rússia ignorava apelos de Washington para que suspendesse o programa de construção na planta nuclear iraniana e a venda de mísseis a Teerã.
A nova e agressiva postura ficou evidente na Ucrânia, onde o Kremlin se empenha em minar a Revolução Laranja (2004) que tirou o regime de aliados pró-Moscou e o deu a políticos ocidentalizados e reformistas econômicos. Mais do que isso, o maior triunfo foi o de ter sido encorajar Yulia Timoschenko a se voltar contra seu antigo aliado, o atual presidente Yuschenko. No começo, a estratégia era a oposta, com as denúncias de que seria anti-Rússia ajudando a ter sua indicação ao cargo de primeira-ministra reconhecida. Posteriormente, citando acusações pendentes contra ela (incluindo denúncias de corrupção junto ao ministério da Defesa, em 1996), os russos impediram que Yulia entrasse no país, mesmo em viagens oficiais. Quando ela se demitiu do cargo em setembro, foi transformada, da noite para o dia, de fora-da-lei em convidada ilustre.
A partir daí, as acusações caíram. Uma visita a Moscou rapidamente foi arranjada. Lá, segundo o ex-ministro da Economia Sergei Terekhin, a ucraniana teve um encontro reservado com Putin. A partir daí, Yulia se transformou em, feroz crítica de Yuschenko, acusando-de ter desviado dinheiro público.
- Queremos Yulia como nossa aliada - afirma Serguei Markov, consultor político do Kremlim. - Não há nada anti-russo sobre ela - completou.
Yulia Timoschenko tem se provado um oponente feroz. O bloco reformista parlamentar, liderado pelo Nosso Partido Ucrânia, tem hoje apenas 13% nas pesquisas de intenção de voto, contra 16% da ex-premier, que ainda perde para um ex-ministro do antigo regime, Viktor Yanukovych, com 31%. Se a legenda de Yanukovych vencer as eleições parlamentares, ele poderá novamente ser premier ou nomear um candidato pró-Moscou.
Enquanto isso, a União Européia, durante o conflito do gás, se mostrava menos poderosa para ajudar Kiev.
- A Ucrânia esperava que a União Européia ameaçasse Moscou com sanções, mas isso não aconteceu - diz Markov.
Embora a UE estivesse comprometida na análise da assimilação das nações a deixar a órbita soviética, fica claro que não passará adiante disso. Preocupados com os próprios problemas - desemprego, baixo crescimento, imigração - os europeus não estão no clima para aceitar a entrada da Ucrânia.