Título: Fatura do 'bye-bye': R$ 5 bilhões
Autor: Mariana Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 29/01/2006, Economia & Negócios, p. A19

O fim da dívida cambial não foi o único erro de estratégia na gestão da dívida pública, apontam os críticos do governo. Ao encerrar o passivo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) - fato celebrado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em inúmeros pronunciamentos neste início de ano e comemorado com a presença do próprio diretor-gerente do FMI, Rodrigo Rato - o governo jogou fora R$ 5 bilhões.

O valor equivale ao custo de se tomar dinheiro emprestado internamente para pagar ao fundo. Para levantar o equivalente ao valor devido de US$ 15,5 bilhões (R$ 35,65 bilhões), o governo paga juros de cerca de 19% ao ano, o que soma R$ 6,77 bilhões em um ano. Se mantivesse a dívida com o FMI - menos do que o governo pretende despender com saúde neste ano (R$ 41,1 bilhões) - o gasto com o pagamento de juros seria de R$ 1,426 bilhão. Isso porque os juros pagos ao FMI não passam de 4% ao ano.

- O dinheiro do governo não é marcado para saber se de onde ele tirou valeu a pena. E como a relação dívida/PIB se manteve quase no mesmo patamar, o nível de endividamento não foi reduzido - aponta o economista de um grande banco estrangeiro que prefere não se identificar. - Além disso, toda vez que o governo tem que comprar dólares para pagar uma dívida, tem que emitir títulos aqui dentro para evitar que haja superoferta de reais.

Para ele, melhor do que pagar ao fundo seria se o governo resgatasse os bradies que ainda estão no mercado e são remunerados a cerca de 6% ao ano. Depois da retirada dos C-Bonds de circulação, restaram outros títulos da época da renegociação da dívida no início dos anos 90 - como os Discount Bond e os A-Bonds, porém com menos liquidez. Sergio Valle concorda:

- É tão claro que foi um ato político, que não houve ganho sequer de credibilidade.

Aos que pensam que os pisos obtidos no risco país têm alguma relação com o pagamento desse passivo, Roberto Padovani esclarece:

- A questão fiscal é um dos elementos menos importantes para a formação do risco país. Hoje, o que mais vem afetando o indicador é o fluxo de capital para os emergentes.