Título: Implante inédito é eficaz contra AVC
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 19/11/2004, Ciência, p. A12
Paciente recupera movimentos depois de receber injeção de células da própria medula em área afetada por derrame cerebral
Médicos brasileiros apresentaram ontem os resultados parciais do primeiro implante de células-tronco numa paciente que teve um AVC (acidente vascular cerebral) agudo. A intervenção clínica, inédita no mundo, faz parte de um estudo, ainda na primeira fase, para testar a segurança do uso de células-tronco em pessoas com derrame da artéria cerebral média.
- Acabei de voltar de congressos na Europa e nos Estados Unidos e não há sequer indicação de um procedimento assim noutro lugar do mundo - confirma Hans Dohmann, coordenador da pesquisa, realizada pelo Hospital Pró-Cardíaco e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Maria da Pomuceno, carioca de 54 anos, teve um AVC no hemisfério esquerdo do cérebro em agosto e tinha nível de consciência diminuído (sonolência), não falava, não compreendia e tinha o lado direito do corpo paralisado.
No dia 24 de agosto, ela foi submetida à injeção de células-tronco, retiradas de sua própria medula óssea. Trinta milhões de células, concentradas em 3 ml de solução, foram introduzidas por 15 minutos na artéria média da paciente, através de um cateter colocado na virilha. Para a alegria dos pesquisadores, não houve rejeição.
- Foi uma grande emoção ver que o cérebro reagiu normalmente à injeção de células-tronco, reconhecendo-as como parte do organismo - revela Dohmann.
Segundo a coordenadora de Neurologia do Instituto de Biofísica da UFRJ, Rosália Mendez-Otero, as células injetadas são incorporadas pelo tecido e se especializam na formação de vasos sanguíneos, que melhoram a irrigação do cérebro e impedem que os neurônios da chamada ''área de penumbra'' morram.
A ''área de penumbra'' é a zona adjacente ao derrame, que é atingida por substâncias secretadas pelos neurônios que morreram no momento do AVC. Tais substâncias causam a morte de neurônios na região entre 7 a 15 dias após o derrame.
Salvar estas células nervosas é essencial para não comprometer ainda mais a capacidade motora e de linguagem do paciente. Mas a intervenção deve ser feita necessariamente entre o terceiro e o quinto dia depois do AVC, porque é quando a barreira que separa o cérebro dos vasos sanguíneos está aberta no local da lesão.
- Esta é uma nova tentativa de se lidar com a ''área de penumbra''. Estamos cautelosos, mas também otimistas - afirma Dohmann.
E não sem razão, de acordo com a equipe médica. Dezessete dias depois da intervenção, Maria da Pomuceno voltou a caminhar, a entender o que as pessoas falam e a esboçar algumas palavras. Além de não apresentar qualquer complicação, sua recuperação foi considerada bem mais rápida do que com os tratamentos habituais.
Exames de ressonância magnética apontaram ainda que a vascularização cerebral no local do implante teve melhora significativa e o metabolismo aumentou ''desproporcionalmente'', segundo a neurologista Maria Lucia Mendonça, coordenadora da equipe clínica da pesquisa.
- Isso significa que as células-tronco estão consumindo glicose e oxigênio, logo, trabalhando como esperávamos - completou Rosália.
- O brilho colorido que aparece nessa ressonância do metabolismo nunca apareceria numa pessoa que não tivesse recompondo a vascularização - comemora o coordenador da pesquisa.
Quando acontece um AVC no cérebro ou no coração, a medula óssea naturalmente começa a produzir mais células-tronco, que são transportadas pela corrente sanguínea. O sucesso desse processo até 14 dias depois do acidente é que determina se a área de penumbra voltará a ser ativa ou não.
- O que fizemos foi acelerar o tratamento, para ampliar a possibilidade de o paciente recuperar qualidade de vida - explica Dohmann.
Além de Maria, outras nove pessoas vão passar até abril do ano que vem pelo tratamento, cujos resultados serão comparados aos de outras cinco que não tenham recebido implante celular. Na fase dois da pesquisa, outros pacientes serão admitidos para avaliar a eficácia do tratamento, não mais sua segurança, como ocorreu na fase 1.