Título: EUA tiram ajuda se Hamas assumir
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Fonte: Jornal do Brasil, 28/01/2006, Internacional, p. A7
Além de afirmar que não vão negociar com um governo palestino liderado pelo Hamas, os Estados Unidos ressaltaram ontem que revisarão toda a ajuda financeira à Autoridade Nacional Palestina caso o movimento radical suba ao poder, o que é muito provável. Israel também deixou claro que não vai aceitar uma administração do Hamas, embora mais da metade dos israelenses acreditem que o Mapa do Caminho deva ser retomado. Em busca de um consenso, a Turquia se declarou pronta a mediar o difícil diálogo entre as partes.
- Para ser bem claro, não damos dinheiro a organizações terroristas - justificou o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, seguido pelo porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack:
- Nossas leis e políticas de Estado nos proíbem financiar grupos terroristas.
Este ano, os EUA prevêem o envio de US$ 150 milhões aos palestinos, para projetos de desenvolvimento e outras necessidades básicas. A ONU também colocou em seu orçamento US$ 84 milhões, para o mesmo fim.
Segundo uma pesquisa do jornal Maariv, 40% dos israelenses acreditam que Tel Aviv deve negociar com o Hamas, se o grupo renunciar à sua determinação de destruir o Estado sionista. Para outros 27%, Israel deve dialogar sem impor condições, baseado no plano de paz Mapa do Caminho. O rompimento de todos os laços entre os dois governos é apoiado por 29% dos 552 entrevistados.
Uma segunda sondagem, do Instituto de Pesquisa Dahaf, fez perguntas mais simples. Os números, publicados no diário Yediot Aharonot, dão conta que 48% das 500 pessoas disseram que Israel deve negociar com o Hamas, e 43% acham que deve ignorá-lo.
Se Tel Aviv ceder à pressão popular e a possibilidade de negociação voltar à cena, o premier turco, Recep Tayyip Erdogan, ofereceu-se para mediar a conversa. Os primeiros contatos entre os líderes ficariam a cargo de um trabalho de aproximação feito pela Organização da Conferência Islâmica, um corpo de 56 nações muçulmanas, acrescenta.
A Turquia é o único membro muçulmano da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e um aliado próximo dos EUA. O país, que faz fronteira com a Síria, o Irã e o Iraque, também tem relações políticas e econômicas tanto com Israel quanto com a ANP.
Já a União Européia, outra financiadora do governo palestino, reúne seus chanceleres na segunda-feira para decidir como lidar com o governo do Hamas, que também considera uma organização terrorista. Há a possibilidade de redução da ajuda econômica, embora analistas afirmem que esta decisão agravaria a situação de pobreza do povo palestino.
- O auxílio é uma clara conseqüência de tudo o que já foi acordado entre a UE e a ANP, inclusive o reconhecimento do direito de Israel existir. Necessitamos continuar esta relação a partir do ponto onde se encontra - defendeu o embaixador do bloco, Ramiro Cibrian-Uzal.
- Eles têm uma obrigação com a gente, e nós com eles.
A ideologia do Hamas não reconhece a existência do Estado judeu no islâmico Oriente Médio. Nos últimos anos, no entanto, alguns líderes da organização aceitaram, ainda que reticentes, a idéia de um Estado palestino na Cisjordânia e Gaza - uma fronteira delineada pela política israelense.
Porém, fortalecido com a vitória nas urnas, Moussa Abu Marzouk, vice-chefe do Hamas, reafirmou que o movimento não vai aceitar Israel como um Estado e continuará lutando contra a ''ocupação sionista''.
- Enquanto o direito do nosso povo for ignorado, vamos manter a luta - prometeu.