Título: Tão longe e tão perto
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 31/01/2006, País, p. A3

Três parlamentares da CPI dos Correios desembarcam hoje em Nova York - a 6.800 quilômetros, em linha reta, de Brasília - para tentar liberar documentos que estão na Polícia Federal e no Ministério Público de Brasília, a pouco mais de um quilômetro da sede do Congresso. A falta de comunicação entre as repartições federais encarregadas de apurar os escândalos e a dificuldade de acesso às provas das ilegalidades atrasam a investigação e favorecem os envolvidos no escândalo do mensalão. Um relatório da Polícia Federal acusou o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Juríd ica Internacional (DRCI), do Ministério da Justiça, de ''criar obstáculos'' para o acesso aos documentos do mensalão e das movimentações do publicitário Duda Mendonça no exterior. O relatório afirma que a coordenadora-geral do DRCI, Wanine Santana Li influenciou as autoridades americanas a não repassar as informações solicitadas por funcionários brasileiros.

Além disso, desde o dia 30 de novembro está sem solução no Ministério Público um pedido feito pela Polícia Federal ao DRCI para quebrar a segunda camada de sigilos das contas do publicitiário Duda Mendonça. O trâmite normal seria o DRCI encaminhar o pedido aos EUA.

O relator da CPI, Osmar Serraglio (PMDB-PR) - que viajou aos EUA na companhia dos deputados Eduardo Paes (PSDB-RJ) e Maurício Rands (PT-PE) - poderá convocar Wanine Lima para dar explicações no Congresso, caso não consiga liberar os documentos de Duda Mendonça hoje. Parlamentares da CPI estão pressionando Serraglio para chamar Wanine, que é ex-procuradora da Fazenda Nacional.

Os parlamentares embarcaram ontem à noite para Nova York na tentativa de persuadir representantes do Ministério Público e da Justiça americanos a autorizar o acesso da CPI às contas do publicitário Duda Mendonça no exterior.

O Ministério Público e o Ministério da Justiça do Brasil já detêm informações passadas por autoridades dos EUA sobre a movimentação da conta Dusseldorf, de Duda.

- Queremos mostrar às autoridades americanas que as CPIs do Brasil têm a condição de investigar crimes em igual situação, e talvez com mais instrumentos, que o Ministério Público e a Polícia Federal - disse Serraglio.

Na PF, o consenso é que os demais setores encarregados da investigação estão atrapalhando mais do que ajudando. Não é só o DRCI que vem atrasando o trabalho dos delegados. O Ministério Público - afirmam os investigadores - vem funcionando como uma caixa-preta, que não troca informações nem com os delegados do caso.

Na PF, é quase nula a esperança de se chegar ao fim do inquérito com uma apuração profunda da corrupção.

Também existe um consenso, na Polícia Federal, de que a maioria dos envolvidos o deverá livrar do indiciamento, já que o desentrosamento dos aparelhos de investigação não ajudou a comprovar que o dinheiro que alimentou o mensalão tinha origem nos cofres públicos. A última expectativa de comprovar o uso de dinheiro público é um laudo sobre o dinheiro supostamente desviado na Visanet.

A maioria dos políticos envolvidas com mensalão seria indiciada em crime eleitoral. Eles seriam beneficiados com a prescrição da pena. Duda Mendonça e Marcos Valério podem ser indiciados por evasão de divisas, outro crime leve, que não não costuma levar ninguém para a cadeia.

Enquanto a investigação não deslancha no DRCI e no Ministério Público, a Polícia Federal tenta continuar o trabalho. Ontem, delegados colheram novamente o depoimento do ex-deputado Waldemar Costa Neto. Até o fim da semana vão ouvir de novo o publicitário Duda Mendonça e o ex-presidente do PT José Genoino.

Com Folhapress