Título: Ataques agora são virtuais
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Fonte: Jornal do Brasil, 09/02/2006, Internacional, p. A21

Cerca de mil sites dinamarqueses foram atingidos por hackers muçulmanos e tiveram de exibir mensagens favoráveis ao Islã

COPENHAGUE - Cerca de mil sites dinamarqueses e pelo menos 1.600 outros ocidentais foram invadidos nos últimos dias por hackers islâmicos. Os protestos se caracterizaram por modificações nas páginas iniciais, que exibiram mensagens favoráveis ao Islã e contrárias à publicação de charges de Maomé por jornais europeus.

Sites importantes, como os do governo e o do jornal Jyllands-Posten, o primeiro a publicar as caricaturas, foram atacados, mas não sofreram alterações devido aos sistemas de segurança. Segundo a Zone-H, uma empresa que monitora a atuação de hackers, as páginas atingidas parecem ter sido invadidas de maneira aleatória e não têm necessariamente relação com os desenhos que enfureceram muçulmanos. Apesar disso, tiveram de exibir promessas de mais violência.

A mensagem ''Danish, you'r D3ad'' (Dinamarquês você está morto) aparece no endereço eletrônico do fotógrafo Thomas Jorgensen. Abaixo do texto aparece uma foto de um boneco pintado com as cores dinamarquesas, pendurado pelo pescoço.

Outros sites, como o esquerdista ''Informationsforlag'', mostravam um texto em árabe, com uma pequena tradução em inglês. ''Tudo, exceto nosso profeta, Allahu Akbar. Jihad é nosso caminho'', diz o texto.

- Nunca vimos um ataque político tão grande em tão pouco tempo - disse Roberto Preatoni, diretor da empresa de segurança. - O que é extraordinário nesse caso é a velocidade com que os grupos se uniram para produzir a maior quantidade de ataques em sites dinamarqueses e em servidores ocidentais já vista.

A monitoração de páginas de chat revelou que hackers e grupos de diversos países islâmicos fizeram contato antes de realizar os protestos. De acordo com a Zone-H, os ataques vieram sobretudo de Turquia, Arábia Saudita e Indonésia.

A mobilização trouxe de volta até um antigo militante, que havia abandonado os ataques virtuais há mais de um ano. ''DarkblooD'' deixou uma mensagem para o ministro das Relações Exteriores, Per Stig Møller: ''As notícias e as charges foram terríveis e extremamente perturbadoras para mim. Acredito que todos os muçulmanos que leram, viram ou souberam dos desenhos ficaram igualmente tristes, decepcionados e incomodados'', escreveu.

Para Preatoni, ''é raro, hoje, que qualquer disputa política não venha acompanhada de manifestações na rede''. Até agora, não há, no entanto, evidências de que hackers ocidentais estejam preparando uma reação.

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, acusou Irã e Síria de incitarem os muçulmanos contra o Ocidente, aproveitando-se da publicação das charges.

- O Irã e a Síria se desviaram do seu caminho para inflamar os sentimentos e usar isso para seus propósitos. O mundo deveria chamar sua atenção por isso - disse, ao lado do chanceler israelense, Tzipi Livni.

Já o presidente americano, George Bush, discutiu o assunto, ontem, com o

rei Abdullah, da Jordânia:

- Acreditamos em uma imprensa livre e reconhecemos que liberdade acarreta responsabilidade - afirmou. - Mas rejeitamos a violência como forma de expressar descontentamento.

O rei, por sua vez, respondeu em defesa do profeta islâmico:

- Com todo o respeito à liberdade de imprensa, acredito que tudo que transforme em vilão o profeta Maomé - que a paz esteja consigo - ou ataque os muçulmanos, deve ser condenado.

A Casa Branca acusa a Síria de não proteger as embaixadas dinamarquesa e norueguesa em Beirute, incendiadas por manifestantes.