Título: Fiado, só no mercado da esquina
Autor: Bruno Rosa
Fonte: Jornal do Brasil, 04/02/2006, Economia & Negócios, p. A17

Compras realizadas várias vezes durante a semana e bem perto de casa. É assim que os consumidores estão enchendo suas geladeiras e dispensas. De acordo com estudo da consultoria LatinPanel, o número de idas mensais a armazéns e pequenos mercados aumentou 129% desde 2001. O número de vezes passou de 5,4 para 12,4. Enquanto isso, nos grandes varejistas, o índice cresceu apenas 14%, de 4,2 para 4,8 no período - ou quase um décimo da taxa verificada nas mercearias.

De acordo com especialistas ouvidos pelo JB, o crescimento dos pequenos estabelecimentos está relacionado às facilidades oferecidas para pagamento, como o parcelamento e a possibilidade de pagar o débito depois - o chamado ''pendura'' ou fiado. Os acordos, verbais ou anotados, em alguns casos são a única saída para que famílias endividadas possam comprar produtos alimentícios ou de limpeza.

Assim, a participação das grandes companhias na venda de produtos recuou de 73% para 68%. Com isso, os canais menores abocanharam 7% das vendas dos supermercados. Foram analisados itens em mais de 70 categorias dos setores de alimentos, higiene, limpeza e bebidas. O levantamento acompanhou o consumo mensal em mais de 8,2 mil lares em municípios com mais de 10 mil habitantes, refletindo os hábitos de 82% da população e 91% do potencial de consumo do país.

Para Fátima Merlim, gerente de atendimento do varejo da LatinPanel, a proximidade e o relacionamento pessoal com o dono do estabelecimento explicam a expansão dos pequenos. Segundo ela, apesar de oferecerem preços mais altos - devido ao pouco poder de barganhar descontos com os atacadistas, por comprarem em menor quantidade - os estabelecimentos cativam ao oferecer parcelamento sem comprovação de renda nem data certa para pagamento.

- Os produtos nos pequenos podem até ser mais caros, mas a distância acaba neutralizando os preços menores oferecidos pelos supermercados, devido aos gastos com passagens de ônibus ou gasolina. A indústria já percebeu a força do comércio de bairros - diz Fátima, lembrando que 70% dos consumidores vão às compras a pé.

A fonoaudióloga Lúcia Helena e o médico Claudio Nogueira têm o costume de passar na mercearia no caminho entre a casa e a escola dos filhos.

- Não passo uma semana sem vir à mercearia. Além de ser perto, os preços às vezes são mais em conta - diz ela.

Ele costuma comprar fiado e acertar no fim do mês.

- Aqui, não pago juros - diz.